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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Esperança ou a falta dela

    
     No momento, vive-se de esperança.

    Dizem que ela é a última a morrer, porém o que se vê são milhares de pessoas sucumbindo ao vírus em virtude de ações negacionistas em relação à pandemia; e elas não vêm apenas da postura perversa, incompetente e inadequada daqueles que são os maiores responsáveis pela segurança e pela esperança da população; ela é também prática comum a muitos brasileiros e brasileiras que desconhecem ou que menosprezam seu papel cidadão.



    Cuidar de si, neste momento, significa cuidar do outro, cuidar da sociedade, investir na esperança de conter o avanço do mal ou de - pelo menos - mantê-lo em níveis controláveis. Festeja-se a vacina, embora notícias deem conta de que as doses disponíveis cobram pequena parcela da população brasileira. Por vezes, embora a esperança pouse na janela, fica bem difícil de incentivá-la ao voo ao se saber de pessoas morrendo asfixiadas, prefeitos adquirindo kits ineficazes de prevenção, gentes fazendo festas ou lotando ruas e praias.

    A postura de negação, de alienação, desde o início incentivada pelo presidente, é a responsável por um país à deriva. Falta decência, falta empatia, falta humanidade, falta espírito patriótico. Falta todo e qualquer valor fundamental a alguém que rege uma nação. Falta esperança.

    Tristes tempos, costumo dizer. E repito, e repito, e repito.

    Poucos são os que se insurgem contra a tristeza; poucos os que esperançam e buscam construir um país de pessoas dignas, ciosas de seu dever cívico de evitar aglomerações, de retirar do poder aqueles que não o usam para promover o bem-comum.

    A esperança morre em mim, todavia a reanimo a cada dia, a cada hora. Sem ela, pouco sobrará.

domingo, 10 de janeiro de 2021

Há uma criatura

     Há uma criatura que foi eleita. E ela é perversa.
     Esta criatura jamais enganou a quem quer que seja para ser eleita; não escondeu sua essência; sempre se orgulhou de suas posturas fascistas, reacionárias, agressivas; não mascarou seu discurso, usando, inclusive o nome de Deus, para justificar atitudes vingativas e perseguidoras; defendeu torturadores, elogiou estupradores.
     Há uma criatura que foi eleita por defender o armamento, a violência, o desrespeito às leis. Esta criatura, aliás, sempre foi eleita, embora sua história política seja repleta de equívocos, de nada de ações a favor da população; seus votos nunca foram a favor da vida. Nunca. E junto com a tal criatura se reúne uma matilha esfaimada por benesses, por vantagens, sem medir meios para tal.
    A criatura eleita defende a morte; ri do povo, sobretudo da parcela mais humilde. A criatura não sabe argumentar: ataca, vê na imprensa seu inimigo maior, defende a censura e usa de meios não lícitos e das prerrogativas do poder apenas usadas por aqueles que não sabem que o poder é exercido a favor de todos e não de si e de sua casta. A criatura não sabe defender ideias (talvez não as tenha); não traz em si a sensibilidade ou a emoção; não se compadece; não se compromete com seu país, entrega-o.
     A criatura não sabe de nada que lhe compete e se cerca de iguais: lhe agradam os aplausos, o amém do gado; a subserviência não questionadora. A criatura semeia a discórdia, ri da morte, debocha da dor do outro. E foi eleita.
    A criatura se arrasta, é tosca, é pândega, mas foi eleita e agora rege nosso destino.

domingo, 31 de maio de 2020

Isolados

        Pensei que estes tempos de isolamento pudessem ser muito produtivos. Estar em casa seria momento para dar conta de projetos pensados, projetos em andamento ou até mesmo para revisões em projetos de escrita já prontos.
          Mas não.
         Vivo um tempo não tempo. Um tempo que passa rápido e que me ocupa com coisas que até então não me ocupavam tanto: a preparação de aulas exige mais, bem mais; a oficina literária é agora online, as lives e os encontros em alguma plataforma virtual (e como há) abundam, o whats o tempo todo repleto de mensagens. A vida está exigindo outra organização, outro modo de olhar para ela. 
           E muitos só a veem pela janela.
          A casa, aquela que até então para muitos era apenas passagem ou dormitório, passa agora a ser território que se oferece ao visitante. Tornamo-nos turista de espaço que julgávamos conhecido e vamos descobrindo (ou redescobrindo) nosso próprio canto. Se a vida exigirá de nós outro olhar, nossa casa também se oferece como novidade.
         Como sairemos disso tudo é difícil responder. Uns afirmam que seremos melhores; mais cuidadosos com o outro, capazes de ressignificarmos a vida. Não sei. Na verdade, duvido um pouco. Ou muito. Ao ver tantas pessoas desrespeitando o isolamento, tanta gente sem máscaras nas ruas, uma multidão a não cuidar o afastamento social, me torno Tomé. E aí parece ecoar aquela frase clichê de que a humanidade não deu certo. 
           Não desejaria o pessimismo, mas uma tristeza enorme me toma ao olhar para o Brasil, ao olhar para os rumos que a política tomou ao eleger pessoas desqualificadas não só para a vida social, como para ditar os caminhos para uma Nação. 

terça-feira, 5 de maio de 2020

É difícil crer

É difícil crer que estejamos vivendo em tempos de vírus que nos obriga ao isolamento, a fim de que a vida possa seguir sendo, e um representante eleito conclame que as pessoas saiam às ruas. E que, como ele, saiam desprotegidas, sem máscaras. E que estendam as mãos e que se cumprimentem e que, se tiverem que tossir, que não busquem proteção qualquer.

É difícil crer que, enquanto se dedicam de corpo e alma a atender pessoas contaminadas pelo vírus, pessoas que se debatem entre vida e morte, sejam agredidos, profissionais da saúde sejam atacados em sua integridade, e que neste momento um representante eleito não se solidarize. Ao contrário: instigue mais e mais violência.

É difícil crer que que a doença esteja lá fora, não escolhendo pobres ou ricos (embora estes tenham muitos meios para enfrentá-la de igual para igual), um representante eleito reúna pessoas em torno de si, e as abrace, e destile seu veneno, menosprezando as consequências da pandemia para o país, o qual jurou defender.

É difícil crer que, enquanto a Ciência defenda o isolamento social, um representante eleito menospreze pesquisas científicas, menospreze ações tomadas pela grande maioria dos líderes mundiais, que trate uma pandemia como se ela fosse uma gripe vulgar, boba.

É difícil crer que um representante eleito não só se exponha, mas carregue pela mão uma menina inocente de nove anos, sua filha. 

Espero que as posturas deste representante eleito, eleito possivelmente por pessoas como ele, não sejam vistas como irresponsáveis. Mas que ele, em um tempo de justiça e de decência, seja responsável por tudo o que fez e também pelo que deixou de fazer.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Quarentena e Arte: breves comentários

       
      Os tempos são de isolamento social. É importante ficar por casa sempre que possível, evitando saídas desnecessárias a fim de que o mal seja menor. Isolar-se, neste momento, significa não participar de aglomerações. Nada de cinema, de teatro, de show, de visitas a museus. A arte será consumida em nossa solidão. Teremos que aprender a conviver conosco mesmos e também com aqueles que vivem com a gente e com os quais, por vezes, esquecemos de interagir. 
     E se a Arte não pode ser consumida presencialmente, muitos artistas têm disponibilizado peças, livros, shows, músicas, de forma virtual e gratuita. Porém, artistas precisam sobreviver, precisam receber por seu trabalho ou ficarão desassistidos, como a cigarra, aquela da célebre fábula, que, em um momento de inverno, em que as formigas se isolaram em sua quarentena. Assim, urge que surjam ações governamentais para que artistas possam se manter ativos nestes momentos de isolamento social, mas não de paralisia artística.

II
         É preciso que nos reorganizemos. O próprio mercado editorial tem feito alguns recuos. No meu caso, por exemplo, estou vivendo algumas diferentes posturas das editoras com as quais trabalho (ou com as quais trabalharia). Algumas recuam, outras aguardam, outras ainda ousam: estas percebem que na crise deve-se ser ousado e não paralisar a vida e a arte. 
             Uma das editoras com as quais trabalho, por exemplo, adiou a impressão de um novo livro que estava prestes a sair. Ficará aguardando tempos melhores, porém sua edição segue adiante. Outra editora me solicitou um original: reeditará meu "Um menino qualquer", que já teve duas edições, a primeira pela WSEditor, a segunda pela Planeta, sendo brinde do MacLanche Feliz. Bom, quando um texto se mostra sempre novo, terá possibilidade de agradar a novos leitores. Outro evento, porém, foi o cancelamento de uma publicação. Editora nova com a qual eu iria lançar um texto desistiu da publicação. Entristeço, claro, todavia entendo. Há tempo para novas parcerias, há tempo para recuos. 

III
            E eu escrevo. Que mais posso? Por vezes surge um poema desgarrado. No mais, digito meu novo original juvenil, que tem como título "O sobrevivente" (confesso que sempre quis um livro com um título assim, simples, curto, apenas um artigo e um substantivo). Digo digitar, pois o fiz todo de forma manuscrita, recuperei um tempo de juventude em que meu material de escrita era papel e caneta. Foi bom, a atmosfera e a estrutura me exigiram a escrita mais automática, mais desenhada, fluida.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Algumas frases não tão inocentes

"Nem sempre o espelho é quem dá conta da verdadeira face. Só o mergulho no poço poderá nos dizer quem somos".

"Quando não se sabe para onde ir, qualquer caminho é caminho. Ou não. Uma estrada sempre pode ter pedras, buracos a impedir trânsito".

"Numa estrada esburacada, cair em um buraco é mera questão de tempo ou de falta de atenção".

"Eu sei bem o que quero; o que me falta é a compreensão clara sobre o que não desejo".

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Hoje fiz sagu


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Hoje fiz sagu.
Para quem desconhece, sagu é um doce a base de suco de uva ou de vinho. Doce muito peculiar aqui no Rio Grande do Sul, costumeiramente comido acompanhado por um creme de baunilha.
Fiz o sagu. Fiz o creme.
Fiz o doce a pedido de uma das filhas.
Hoje fiz sagu.

Fazer sagu para a família, ler um livro, ir ao teatro ou ao cinema, encontrar amigos, escrever, rir, amar... Estas têm sido minhas formas de resistência mediante o tanto de notícias trágicas, quer aquelas como as proporcionadas pela Vale, quer as determinadas pelo atual governo. Atacam a previdência, atacam as empresas públicas, destroem a natureza, perseguem índios, negros, mulheres, trans, perseguem qualquer voz que possa se insurgir contra atos tão medievais perpetrados por governantes publicamente envolvidos com atos de corrupção. E tudo soa normal: as ruas calam, as praças calam, panelas calam, bandeiras calam. Há os que percebem a burrada feita; há os que seguem a gritar contra a corrupção, defendendo corruptos. 
Difícil se torna a luta, quando os atacados se unem ao feitor; quando os que estão sendo despossuídos de seus direitos, se entendem como parcela beneficiada da população.
Tudo muito torpe, tudo muito triste.
A arte, o afeto, os amigos, meu sorriso no rosto é algo que não me podem usurpar. Minha palavra é minha: podem calá-la enquanto voz, jamais poderão domar o pensamento.
A arte liberta.
A arte questiona.
A arte possibilita o sonho.
É necessário, pois, fazer sagu. Comer sagu.
No pouco, resisto.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Sobre prêmios literários


Um prêmio literário é sempre importante na carreira de um escritor, sobretudo se este prêmio tem a chancela de pessoas envolvidas e comprometidas com a literatura e o respeito de seus pares,  se este prêmio não pretenda apenas atiçar vaidades, fomentar preconceitos, unir gêneros e públicos distintos entre si.
Como se poderá estabelecer critérios de julgamento semelhante para produtos tão distintos, quer em sua natureza, quer em sua estrutura, quer em seus diferentes públicos? Um prêmio que se propusesse a isso, com certeza, não cumpriria sua função maior: a busca da lisura, da igualdade, da possibilidade de se construir como referência de qualidade àqueles que, por ventura, o tivessem recebido.
O prêmio Tapiti vem para somar. Ele respeita o diverso; ele saltita entre o diferente, colhendo as rosas, mas respeitando a importância do espinho; ele se alegra nas águas do Amazonas, mas também brinca pelo Pampa gaúcho e envereda por tantos sertões, por tantas searas, por muitos quilombos. Tapiti é respeitoso, é controverso, é plural. Tapiti é respeitoso. Tudo o que um prêmio deve ser. Tapiti não aproxima alhos e bugalhos, tentando encaixá-los em uma mesma caixinha. Tapiti premia alhos; Tapiti premia bugalhos.
Assim, neste breve discurso, quero agradecer à mentora deste prêmio, a diversa Penélope Martins, que me agraciou com premiação tão ímpar e me permitiu dizer estas breves palavras. Por fim, dedico esta honraria, ao querido casal das letras e das imagens (que elas se casam sim, complementam-se, com certeza, mas também têm lá suas especifidades): Volnei Canônica e Roger Mello.
Obrigado.
(espaço para os aplausos e para os saltitantes pulos de uma Tapiti no palco)

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domingo, 17 de dezembro de 2017

Àqueles que menosprezam a leitura



Sr. Prefeito Marchezan, sr. Secretário de Educação Adriano de Brito, senhores vereadores que disseram não ao Programa de Leitura Adote um Escritor,
                Qual foi o último livro que vocês leram? Que livros vocês têm nas estantes de suas casas? Que leituras marcaram suas infâncias, suas adolescências? Que importância tem a leitura em suas vidas? Aliás, vocês já pensaram sobre a importância dela?

             
   Pois quero lhes dizer que no dia 11 deste mês participei, na Emef Morro da Cruz, de mais uma edição do Programa de Leitura Adote um Escritor. Talvez o que um escritor faça ou deixe de fazer não seja importante para os senhores, homens e mulheres tão ocupados em definir os rumos de nossa cidade. Todavia, gostaria de lhes dizer que, mal cruzei o portão da escola, fui acolhido com a música de vozes infantis dizendo: “Ele chegou, ele chegou”, seguida da repetição de meu nome e de palmas, de abraços, de sorrisos. As crianças eram plena expectativa. Com tal recepção, fui convidado para partilhar um universo mágico suscitado por meus livros e concebido pelo empenho e pela animação (apesar dos dissabores pelos quais a educação municipal tem passado) de professores e de professoras que acreditam na literatura como chave para abrir as portas da cidadania e do sonho. Sonho? Poderão os senhores estar se perguntando. Ora, sonhos! E lhes repito: Sonhos, sim. Muitos e necessários. Sonhos e aprendizagens, sonhos e saberes, sonhos e mergulho na magia das palavras.
                Participei de bate-papos, de trocas de ideias e de alegrias, da experimentação do “Túnel das sensações”. Houve apresentação musical, trabalhos que desenvolveram diferentes habilidades, chá literário no interior da biblioteca.
                A Emef Morro da Cruz, numa quente tarde de segunda-feira, senhores e senhoras, aqueceu mais ainda pequenos corações com a chama da leitura: aquela que abre os olhos para o outro, que fortalece o desenvolvimento cognitivo, social, emocional. Por isso, desentendo que alguns vereadores, amparados sabe-se lá por qual orientação, tenham votado contra o Adote um Escritor, negando o investimento de verbas neste programa tradicional e recentemente premiado. Programa que tanto tem feito pela construção de leitores em nossa cidade.
                Senhor prefeito, senhor secretário, senhores vereadores, de fato os tempos se tornam difíceis, quando percebemos que o poder público menospreza a educação, a cultura, a leitura. O Adote um escritor é projeto vencedor, é modelo para tantos outros que foram implementados em outros municípios e seguem recebendo investimento significativo. Assim, se vossas senhorias estão descrentes em relação ao que escrevo, peço que conversem com alunos, com professores, com outros escritores e fiquem abertos à alegria que estampa o olhar de quem vive o Adote. E, caso não acreditem no que escutam (Ah, a descrença tem mesmo tomado muitos corações), peço que visitem uma escola (qualquer uma que participe do Adote), peço que assistam às atividades; sejam São Tomé: seus olhos não mentirão. Aí, aí sim será possível crer que o Adote um Escritor não será jamais programa de leitura que necessite brigar pelo direito de seguir existindo. Atenciosamente, Caio Riter.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Sobre censura

É isso que desejo:
o direito de ir e vir; de ir e ver; de ver e gostar; ou de desgostar, de odiar; o direito de acolher. E também o de me indignar. O direito de me espantar, de me sensibilizar, de rejeitar aquilo que vai de encontro ao que acredito. E o de incensar aquilo em que creio.
É apenas isso que desejo:
o direito de dizer isso é bom e me agrada; isso é ruim e me incomoda; o direito de ouvir qualquer música e o de calar o meu rádio; o direito de entrar em um museu e o de não entrar também. Quero o direito ao feio e ao bonito; ao religioso e ao profano, ao riso e ao pranto.
É somente isso que desejo: a liberdade do sim, a do não, a do quem sabe.
Não me impeçam de pensar. É disso que eu preciso. É por isso que luto.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Nada de queixas

Não posso me queixar de 2015. Não. Há muita gente propagandeando crise aqui, crise acolá. E, de fato, seus ares ventaram sobre o mercado editorial, sobretudo com a suspensão pelo Governo Federal de aquisições de livros pelo PNBE. Isso mexeu com as editoras. Muitas delas (a maioria) suspenderam edições, ou as adiaram. Outras devolveram originais, demitiram pessoal, apregoaram o fechamento. O fato é que muitas editoras também surgiram (apenas por isso e para isso) na esfera do PNBE: não se preocuparam em fomentar o mercado editorial e livreiro. Assim, se um livro era selecionado pelo Governo, a razão do investimento parecia já ter se cumprido. Preocupação com leitores? Pouca ou nenhuma.
Mas se não me queixo, embora o mercado tenha apertado o cinto, é porque foi um ano bacana: fui finalista com "Apenas Tiago" (Positivo) de dois importantes prêmios: Jabuti e Açorianos; tive texto traduzido, venci o Açorianos de Criação Literária, tive meus livros "Bia e Nando, tem gente nova na escola" (Lê), "Bichos daqui, de lá e de além" (Edelbra) e "Contos Populares do Sul" (Scipione) publicados. 
E se não me queixo foi também por visitar muitas escolas e feiras, foi por participar de vários projetos de leitura (muitos com bastante qualidade). 
2015 foi ano proveitoso: em premiação, em construção de mais leitores, em trocas de leitura, em livros novos à disposição de olhares desejosos.
Balanço feito, balanço positivo. Resta seguir semeando, com vagar e sempre.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Sobre livros, sebos e autógrafos

Eu prefiro a Serra ao Mar. Talvez seja estranho, mas sei que não estou só, tantas eram as pessoas passeando por Gramado e Canela neste final de semana. E na volta, a visita à Livraria Miragem, em São Francisco de Paula, trouxe algumas boas surpresas. A primeira, claro, é perceber a pujança de uma livraria como esta. Espaço nunca antes visto por estas terras. Vale a visita, com certeza. Diferentes ambientes, livros e livros, além de um outro tantos de coisa bonita pra se ver. E a segunda foi descobrir no sebo (há um sebo no andar superior da livraria!) um livro do poeta Paulo Hecker Filho. O primeiro editado pela Edições Fronteira. Isto em 1950. E o livro veio com o autógrafo, dado no mesmo ano, para uma certa Norma. Aliás, havia vários livros autografados para esta mulher. E eu e Laine já imaginando alguma história para ela. Ou várias.
Na verdade, fiquei pensando sobre quem teria se desfeito dos livros da Norma, para quem eles (e ela também, visto que sua marca, seu nome, estavam presentes naquelas páginas) não tinham a menor importância? Estranho este sentimento de pertença com os livros. Sobretudo os autografados. E Norma, possivelmente, não vive mais; assim como o poeta. E o livro, umas raridade: a primeira edição de uma editora que não sobreviveu sabe-se lá por quais motivos. Provavelmente, as questões financeiras já adiantadas na orelha (abaixo transcrita). Alguém se desfaz de um livro, de um livro autografado, de um livro que uniu no passado e, talvez, para sempre, Norma e Paulo. Um livro destes deveria ser herança da qual jamais os herdeiros se desfazem: os poemas sempre a dar conta de quem os escreveu, de quem os leu, de quem passou por estas páginas agora amareladas seus dedos, como carinho, e suspirou e se inquietou e se desacomodou ou se enterneceu com a lírica nele presente.

Um livro é para sempre. E este, que foi de Norma, hoje é meu. E eu me sinto próximo desta mulher que não conheci, e deste poeta que nunca eu tinha lido antes, mas do qual sempre havia ouvido palavras que atiçavam o desejo do desvendamento. O poema que abre o livro:

RIMBAUD

Pelas calçadas em luz baça
os ratos tomam vinho
no cuspe alcoólico dos bêbados

Leio Rimbaud.
                         10-4-49


Ah, e vejam só o que diz na orelha do livro "Ah! Terra", de Paulo Hecker Filho. Lembrando: a edição é de 1950.
"É êste o primeiro livro lançado por FRONTEIRA, revista da nova geração literária do Rio Grande - primeiro marco de um programa editorial que vai permitir o aparecimento de várias obras de escritores e poetas nossos, no momento a se estiolarem pelo silêncio a que os obriga a falta quase absoluta de publicações literárias entre nós e o comercialismo prudente dos editôres. Iremos realizando, na medida da possibilidade econômica, a publicação dos originais escolhidos (...)¨ 

E aí segue citando os próximos autores. Entre eles, Mario Quintana, Guilhermino César e Augusto Meyer. Ou seja: autores, desde sempre, penam para terem seus textos publicados. A luta inglória vem de longe, bem longe.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Algumas dores


            Primeira dor
Nos dois últimos dias, vi dois filmes que concorreram ao Oscar: “Philomena” e “12 anos de escravidão”. E o que doeu, o que abriu buraco no dentro de mim, é saber que tudo aquilo aconteceu. Em ambos, a crueldade que humanos são capazes de impetrarem contra seus semelhantes;  em ambos, os algozes justificavam suas ações em crenças inabaláveis. Uma mulher e um homem, uma branca e um negro, os dois vítimas de um sistema que oprime em nome de uma verdade discriminatória, segregadora.

Segunda dor
Dor outra, maior quem sabe, foi perceber que o discurso do dominador foi assumido pelas vítimas, como se toda a desgraça que se abateu sobre elas fosse natural. Até quando o oprimido fará isso? Até quando aquele que padece de uma realidade cruel acreditará na própria culpa do mal, julgando que tudo ocorre como deve ocorrer? Acuados pelo medo, temerosos da mudança, a ação sendo inibida pelo receio de uma verdade mais sofrida ainda. Assim, calam, assumem o verbo do outro, do dominador.

Terceira dor
Esta vivida, sobretudo ao assistir “12 anos de escravidão”. Na plateia do GNC Moinhos, um nada de negros; nos rostos dos que saíam, em sua maioria, uma expressão despreocupada, um ou outro riso, como se não tivessem sido tocados pela dor pungente expressa na tela grande, tudo talvez não passando apenas de um espetáculo cinematográfico. Como não se deixar tocar, como sair incólume, como ter palavra leve, quando fomos premiados com a possibilidade de repensar a vida passada, a fim de que situações como as retratadas nos filmes jamais ocorram novamente? Pergunta que ainda reverbera em mim.

E pensar que depois de assistir a esse filme, depois de aprender nos bancos escolares o que foi a escravidão, há gente que segue acreditando que o sistema de cotas raciais é injusto. Ora, por favor.


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Homenagens vividas

Sou patronável.
Para quem não conhece o neologismo, já tão arraigado na cultura porto-alegrense, vai aqui breve explicação: patronável é o candidato a patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. São dez os patronáveis. Dentre eles, a comunidade do livro escolherá o novo patrono.
É bom ser patronável.
Aliás, é boa toda a homenagem. 
Sobretudo, quando ela vem enquanto o homenageado pode usufruí-la. Quando ele pode perceber o tanto de carinho que sua obra suscita, quando ele pode se ver presente no próprio ato da celebração. Ah, estas sim as homenagens valiosas.
Sou patronável. 
Colho este ano um pouco do carinho dos amigos a tecerem votos de sorte. E vejo na indicação um respeito da setor livreiro por mim e pela minha obra. E fico a acreditar que, de fato, sou escritor. Que meus livros e personagens habitam o coração de meus leitores. Que, de alguma forma (que pode ser pífia, não sei, não consigo precisar) faço diferença. E isso é bom. Essa a maior homenagem, sempre. Sentir-se parte do sonho que sempre se buscou construir.
Homenagens como esta, ou como as que tenho recebido como patrono de várias cidades do interior (a mais recente foi em Lindolfo Collor), ou como o apadrinhamento de bibliotecas (há duas com meu nome, na escola Dom Bosco, em Morro Reuter, e na Vinicius de Moraes, em Porto Alegre. Homenagens vividas, estas as que valem.
Detesto homenagens póstumas. Para que servem, afinal? Memória, lembrança, tentativa de imortalidade? Prefiro sentir viva no peito a emoção de ser presença. O resto, como já disse Shakespeare, é silêncio.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

As milícias de plantão

Hoje tudo é visto com olhar enviesado pelas milícias de plantão. Tudo pode ser o que não é. Qualquer palavra, qualquer gesto pode ter por trás de si algo que seu mentor não pensou, não quis fazer ou dizer. Mas as milícias do politicamente correto estão a postos, prontas pra colocar quem quer que for diante do carrasco, e este será implacável. Acusará, torturará se for preciso, a fim de que o outro (aquele que nem tinha - e talvez não queria - que seu gesto causasse a polêmica que causou). Ah, certo, dirão que devemos ser responsáveis por nosso atos, por nossas palavras. Concordo. Todavia, não posso aceitar que intenções sejam colocadas em atos comuns e, creio, inocentes.
Vivemos, dessa forma, amedrontados. Quem escreve sabe disso: nossos vilões hoje têm de ser hieginizados: brancos, ricos, homens. Aì, pode, aí o preconceito não existe, aí o politicamente correto encontra abrigo. Mas será? Acabamos por transformar o que tem menos valia social no mocinho da história.
Meu amigo Rubem Penz, cronista de qualidade, tocou em tal questão em belíssima crônica "Onde estão os japoneses", publicada no CP e em seu blog (http://rufardostambores.blogspot.com/2011/12/onde-estao-os-japoneses.html), quando fomos eleitos os novos diretores da AGES: associação gaúcha de escritores e só havia uma mulher na diretoria. Nós não havíamos chamado o Conselho Fiscal para a foto ( nele, as mulheres são maioria). O fato é que por isso fomos apelidados de Associação da Exclusão Social. Pasmem!
Pois é como digo: a sociedade fiscaliza, está atenta. Portanto, não deslize que a punição vem.

sábado, 16 de abril de 2011

A criatura do Realengo

Há poucos dias, a mídia explorou, com detalhes, o episódio do Realengo, que, creio, desnecessita de explicações. Todo mundo sabe do que falo. Tiros em local impróprio, demasiadamente impróprio. Afinal, mata-se em guerras; mata-se no trânsito; mata-se na esfera privada por diferentes motivos: amor, ódio, dinheiro; mata-se em festas. Enfim, a violência já é nossa consorte (ou amante) nesses dias tão tingidos de cinza. E de vermelho. O vermelho sangue de corpos inocentes, ceifados na flor da vida. O vermelho sangue também de uma criatura que na vida foi expoliada de seu primeiro direito: o de ser amado. Quem não é amado não sabe amar. Quem aprendeu a viver no medo da perda aprende a proporcionar perdas em nome sabe-se-lá-do-quê. E o lugar que deveria ser oásis, recanto, ninho transforma-se em cenário de barbárie. A sociedade se horroriza; a violência dá sua cara a tapa. E un tanto de gente se apavora. O mesmo tanto que aceita, feito boi dormindo no pasto, feito macaco que fecha olhos, ouvidos e boca, que tantas outras mortes ocorram, graças à fome, ao preconceito, à miséria. Afinal, os tiros no Realengo foram mesmo de pólvora. Porém, outros tiros tantos são disparados a todo o momento. E nós, na maioria das vezes, calamos diante da morte do sonho, da dignidade, da solidariedade. Criamos monstros, como o tal do Wellington. E, depois, nos apavoramos com seus atos. Somos tal qual o protagonista do clássico livro de Mary Shelley: Frankesteins cria a criatura e não se dá conta que é responsável por ela, que ela carece de carinho, de amor; que ela se sente só; que ela não pediu pra nascer. Uma vez monstro, portanto, dará ao ser criado a certeza de sua função no mundo: provocar monstruosidades. Só assim, talvez, o olhem. Mesmo que seja para dizerem que ele é um ser desprezível. O momento é de dor. O momento é de pensar quantos outros monstros, ainda, a sociedade irá gerar.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Bethânia, Jorge, Poesia e Ira

A semana foi de ira. Melhor se tivesse sido de debate. Ira contra Maria Bethânia, ira contra Jorge Furtado, que, em seu blog, resolveu defender a cantora. Uns dizem que um blog que custe um milhão e trezentos mil reais é absurdo. Outros dizem que o valor á para captação, que esta inclusive pode não ser concretizada. Uns dizem que é um blog de POESIA!; outro dizem que é um blog de poesia??? (Bah!).
Na verdade, não são os argumentos que me incomodam. Apavora-me a raiva, a ira, que algumas pessoas aproveitam para extravasar quando ocorre algo que, de certa forma, lhes incomoda. A lei permite que um projeto como o do blog de Bethânia seja apresentado, ela o apresentou dentro da lei. A lei liberou os recursos, se ela conseguir captá-los o fará dentro da lei. Assim, quem está errado afinal: os idealizadores do blog ou a lei?
Falta, por vezes, racionalidade, tranquilidade na exposição ou problematização de tais questões. Logo, a vida pessoal dos envolvidos é atacada, sua história é vista como algo imutável, como se o fato de alguém nascer num lar de direita o obrigasse a ser também de direita. Ideias estão aí para serem mudadas. Por isso, estamos vivos, por isso, somos seres humanos.
Que ideias sejam discutidas, que posições sejam questionadas, porém que isso seja feito com lucidez e não com ataques pessoais.
Talvez a vida precise mesmo de blogs de poesia.
Quem sabe com uma atmosfera mais lírica envolvendo todos a vida não se torne mais amena, mais suportável!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cinema, pipocas e refri

Não sei se envelheço (quer dizer, que envelheço, envelheço, afinal o tempo é implacável com todos), mas o fato é que não ando mais tão acomodado a situações que, outrora, embora me irritassem, não me indignavam como agora. Sei das modernidades, mas também sei (e acredito) na importância da tradição, na relevância de alguns rituais que, se não mantidos, tendem de fato a fazer as novas gerações acreditarem que tudo é permitido.
Há poucos dias, fui ao cinema. Hábito que me agrada por demais, mas que, cada vez que penso em exercitá-lo, me vem à mente o cheiro forte de pipocas, a chupada final de um enorme copo de refrigerante, as conversas paralelas ou explicativas sobre determinada cena. Cinema não é bar, não é restaurante, não é fastfood. Cinema é cinema. Espaço de integração entre espectador e filme, ambiente para que a imersão na magia da sétima arte, entrega. Se não assim, preferível é ficar em casa, confortavelmente acomodado no sofá, assistindo a um DVD. Não?
Houve um tempo, inclusive, que algumas salas, como as do Guion, não permitiam tais excessos. Lá, ia-se ao cinema para assistir-se ao filme. O papo e os comes ficavam para depois, em alguma mesa do café do próprio Guion ou em alguma outra das tantas espalhadas pelo Olaria.
Hoje não. Infelizmente, pode-se comprar pipocas lá, pode-se encher o ar de um cheiro forte de queijo derretido, pode-se interromper a atenção a uma cena graças a uma sugada de canudo no fundo do copo de refri.
E aqueles que, como eu, curtem o silêncio das salas de cinema ficam à mercê sei lá de quê.