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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Escrita em tempos de pandemia.


           No início do isolamento, este tempo de não tempo me desorganizou bastante e me fez crer que as palavras estavam apartadas de mim. A concentração necessária para dar voz a novos personagens parecia algo raro. No entanto, nas últimas semanas, as palavras permitiram proximidades novamente. Acabei retomando projetos que estavam em latência: finalizei um novo texto infantil, em prosa poética, “Dois pinguins no deserto”, e me envolvi com a revisão de dois textos inéditos, “O sobrevivente”, uma novela para adolescentes, que escrevi de forma manuscrita, já que pediu postura mais visceral no próprio ato de escrever.  Também retomei um projeto de romance, “Maré”, o drama de um pai à procura de um provável filho.
                                                  Fernanda Costa-ZH

Porém, o que mais tem me encantado é a produção de um texto a muitas mãos. Se escrever sozinho é desafiante, criar a partir de diferentes olhares e desejos abre um universo instigante na relação com as palavras, além de, neste tempo de fechamento, promover a abertura ao outro, à subjetividade do outro, aos recursos literários do outro. O ato egoísta da escrita precisa render-se a vontades já não apenas minhas. Assim, o livro que está surgindo, ainda sem título, terá autoria múltipla e tem como mote um evento surreal, que aprisiona algumas pessoas no interior do prédio em que moram. Fazem parte do grupo Seis + 1, além de mim, o Alexandre Brito, o Antônio Schimeneck, o Christian David, a Gláucia de Souza e a Laura Castilhos.

Este texto foi escrito para ZH Virtual. Doze escritores falaram de seu dia a dia de escrita em meio a este tempo de isolamento social. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Sobre artesania e inspiração

      Sempre me entendi como um escritor-artesão. 
     O filósofo Dufrenne distingue o processo de escrita em duas possibilidades, tendo por base a concepção do escritor sobre o seu próprio ato de escrever. Ele fala em poeta-artesão e poeta-inspirado. 
     O inspirado é aquele que acredita que a escrita se dá no próprio ato de escrever, ou seja, para tal escritor, não há a necessidade de planejamento; os personagens e a trama vão se construindo conforme as ideias vão se apresentando. Assim, quando o escritor escreve, ele não está preocupado com nada além da própria ação do escrever. Meu professor (e depois meu amigo e colega na FAPA) Lauri Maciel, contista e romancista, quando conversávamos sobre o processo de produção literária, sempre me dizia que, ao iniciar um texto, tinha uma ideia muito vaga (às vezes nenhuma ideia) sobre a história que iria escrever. Era, pois, um escritor inspirado. Já ouvi (e muitas vezes duvidei deles) escritores dizendo que seus personagens ganham vida à revelia do destino que foi traçado para eles. "Meus personagens, por vezes, me surpreendem", afirmam alguns escritores. Eu, confesso, sempre achei muito estranha tal postura. Me perguntava: Como pode um personagem decidir seus caminhos, se ele é uma criação do autor? O autor deve ser o domador, deve conduzir seu personagem para aquele fim que lhe é destinado. Afinal, sempre me entendi como um escritor-artesão.
       O artesão é aquele, na tradição de um Flaubert, que busca planejar sua escrita. A ideia vem (não curto a palavra inspiração) e o escritor irá testar as possibilidades daquele conflito, organizando-o racionalmente, definindo personagens, peripécias, desfecho. Aí, sim, após tudo previamente acertado, iniciará a escrita, conduzindo seus personagens ao destino que lhes foi traçado pela razão do escritor, a fim de provocar no leitor o efeito que determinou, na concepção do texto, que o leitor experimentaria. Eu me filio (ou filiava) a tal vertente. Fiz oficina literária com o Luiz Antonio de Assis Brasil e sempre admirei sua capacidade de pesquisa exploratória de um tema e de um personagem, preocupando-se não apenas com "o que contar", mas sobretudo com "o como contar".
      Minha escrita sempre buscou isso: ter um tanto de racionalidade nas escolhas, elaborar um planejamento, um "esqueleto", como costumo dizer, que será enchido de carnes no processo da escrita. Carnes necessárias para que o esqueleto, aquele previamente pensado, adquira sua forma definitiva. E aí a escrita e a reescrita (quantas vezes forem necessárias) se farão presentes.
      Mas, como disse no início destas breves reflexões, sempre me entendi como um escritor-artesão. Sempre. Até o momento em que li o livro do Stephen King, "Sobre a escrita". Nele o escritor fala que parte de uma situação e o restante se faz no próprio ato de se fazer. Sem planejamento, sem outras intenções que não apenas contar uma história. Achei bastante desafiador, bastante questionável, sobretudo ao ler alguns títulos do autor, tais como "Carrie, a estranha" e "Misery". Não consigo ver neles tramas nascidas ao acaso, sem o burilamento necessário para que o texto feche e provoque em mim o que eles provocaram.
       O fato é que, no dia 1º de janeiro, enveredei, motivado pela leitura de "Palácio da Lua", de Paul Auster, que me sugeriu um personagem, a escrever um livro juvenil sem qualquer planejamento. Pouco sabia eu do Francisco, apenas seu drama principal, seu conflito maior. Pois comecei a escrever, de forma manuscrita (estava na praia e quando viajo não levo note: acho pesado, dependente de tomadas e etc), sem saber ao certo quem era meu protagonista e o que ele revelaria a mim durante o ato da escrita. O texto agora se aproxima do fim. E é meu primeiro romance totalmente escrito de forma manuscrita. Páginas e páginas, papel e caneta, eu dando voz ao Francisco, ao mesmo tempo que vou conhecendo-o, entendendo-o, percebendo suas dores e seu modo de enfrentá-las. Experiência diferente, ímpar, inusitada. Não sei se melhor ou pior do que o modo como sempre me debrucei sobre meus textos anteriores. Não sei. Só sei que o Francisco está presente, não sai de mim. Não sai, não sai, não sai.
       E tem sido bom.



quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Cecília que eu amo

Há alguns anos, pensei na história de uma avó que tivesse uma doença incurável e que decidisse não passar seus últimos dias em um hospital. Esta avó era mulher especial, sobretudo por amar a poesia de Fernando Pessoa e por resolver iniciar seu neto, Bernardo, no universo da poesia. Entre eles, desde a infância, se estabelece uma relação muito próxima, muito visceral. Eles se amam, se entendem, partilham dores e alegrias. 
Então.
O pensamento, e é bom isso, acabou virando livro: Cecília que amava Fernando, que em 2015 conquistou o Prêmio Açorianos de Criação Literária, que naquele ano premiou original dedicado ao público adolescente. E, de lá para cá, Cecília  tem me dado muitos motivos para amá-lo: retorno emocionado de vários leitores; premiações importantes também. 
Esta semana, quando a CBL divulgou os finalistas ao Prêmio Jabuti, Cecília me deu a alegria de estar entre os dez que disputarão o troféu na categoria juvenil. Sou feliz, estou feliz. Bacana quando uma história vai ao encontro do coração dos leitores e também da crítica especializada.
Agora, é aguardar o final do mês: somente nos últimos dias de outubro conheceremos os vencedores do Jabuti.
Resultado de imagem para prêmio Jabuti

sábado, 25 de janeiro de 2014

Livros e McDonalds: temperar a imaginação

PublishNews - 23/01/2014 - Leonardo Neto 

McDonalds vai distribuir 10 milhões de livros na América Latina em 2014 

O McDonalds quer se transformar, em 2014, na maior rede de livrarias do Brasil. Isso mesmo. Você não leu errado... Em fevereiro, a rede de fast foods vai dar livros infantis na compra do McLanche Feliz. A campanha, que acontece em toda a América Latina, promete distribuir 10 milhões de exemplares em 2014. De acordo com Hélio Muniz, diretor de comunicação para o Brasil, 50% disso ficará nas mais de 700 lojas do McDonalds espalhadas em 159 municípios de todos os estados da federação. “Estamos muito felizes em usar a nossa grande capilaridade para estimular o hábito de leitura entre as famílias”, comemora o diretor.

A edição ficou por conta da Planeta. “Procuramos uma editora que tivesse a capacidade de chegar em diversos países da América Latina e, nesse sentido, a Planeta foi a parceira mais adequada”, comentou Muniz.

A campanha será feita em dois rounds. O primeiro, marcado para começar em 25 de fevereiro, vai distribuir seis títulos de autores nacionais. Encabeçando o time, Ana Maria Machado, com o inédito De noite no bosque, que conta uma história que mistura vários clássicos infantis contados por dois irmãos. Dois poemas (A Casa e O Pato) de Vinícius de Morais musicados pelo Poetinha e por Toquinho no álbum Arca de Noé estão em outro título da coleção. Caio Ritter (com Menino qualquer), Lalau (Você pergunta, a poesia responde), Márcio Vassallo (A voz da minha mãe), Leticia Wierzchowski e Marcelo Pires (O farol e o vaga-lume) completam a coleção.

Essa não é a primeira vez que o McDonalds dá livros a seus clientes. Em novembro de 2013, a uma campanha distribuiu livros nas áreas de ciências e física, mas que, de acordo com Isabela Almeida, gerente de marketing da empresa no Brasil, não teve o alcance que terá agora. “Essa é a primeira vez que fazemos essa campanha de livros exclusivamente com autores brasileiros. A gente entendeu que era hora de trazer uma nova edição com livros mais lúdicos, escritos por escritores que já têm a linguagem do universo infantil”, comentou Isabela. Além do texto, os exemplares trazem atividades e uma cartela de stickers que permite que os leitores recontem as histórias lidas no livro. Em novembro, será feita uma nova campanha.

Em nível mundial, essa onda de dar livros na compra de lanches do McDonalds começou na Europa, há dois anos. A ideia é que se torne uma campanha sazonal, mas permanente no Brasil. No período da campanha, o McDonalds estuda levar contadores de histórias e autores para sessões de autógrafos nas suas lojas. “Se a gente fizer que uma criança saia das nossas lojas com um livro e compartilhe com um amiguinho, teremos a nossa missão cumprida”, comentou Daniel Arantes, diretor de planejamento de marketing para América Latina da companhia. “Dizem que poesia não enche barriga, mas enche a alma... Nossos clientes vão poder sair dos nossos restaurantes com a barriga e alma cheias agora”, finalizou Arantes.

É política do McDonalds vender os brindes do McLanche Feliz, independente da compra do kit. Pais e crianças que quiserem adquirir um exemplar terão que desembolsar R$ 9,50.

sábado, 7 de setembro de 2013

E a poesia se faz


Céu de Clarice

Clarice desenha na folha branca de papel
estrelas, estrelas, céu cheio de estrelas.
Não escuta o que o professor diz,
não enxerga o que ele escreve na lousa,
não entende nada de fórmulas ou de crase.

Clarice só sabe de seu céu,
de seu céu de papel e de linhas...
Só sabe daquele céu tão seu,

repleto de estrelas, de estrelas. Estrelas,

PS.: Este poema faz parte de meu novo livro, Futurações, que será lançado pela Editora Projeto, em outubro. Mergulho no universo adolescente pelo viés da poesia. Sou expectativa.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

E vem aí Sete Patinhos na lagoa...

Sete patinhos na lagoa, livro infantil, escrito em prosa poética, narra a luta entre os patinhos e o terrível jacaré Barnabé. Nele, dialogo com a tradição, com as origens orais da literatura infantil, retomando a estrutura das narrativas de acúmulo, em que as situações se repetem acrescentando alguns elementos diferentes. A ideia também foi buscar uma relação intertextual com a mitologia grega. O resultado me agradou. E o livro ganhou as belas ilustrações de Laurent Cardon. A editora é a Gaivota. Abaixo link para o blog da editora. Lá há apresentação do livro e algumas ilustrações. Acesse:

http://blogbirutagaivota.wordpress.com/2013/01/28/sete-patinhos-saem-do-forno/

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Maria na janela; Patinhos na lagoa

2013, é certo, acrescentará à minha história de escrita mais dois livros infantis. Cada um com sua trajetória, ambos amparados pelo selo da Editora Biruta, da minha querida Eny Maia, parceria que tem conquistado alguns destaques e alguns PNBEs. Isso é bom. Sempre. Quando há sintonia entre o querer do autor e o do editor, o resultado são livros lindos, prontos para serem degustados, saboreados, por leitores de todas as idades. O bom livro infantil, já disse Orígenes Lessa, é aquele que, quando lido por um adulto, provoca-lhes encantamentos. E isso que creio desejar ao lançar novo livro: que seja capaz de trazer um tanto de encanto para aquele que abri-lo. Escrever é possibilidade de encontro, sempre. E vem aí, Sete patinhos na lagoa, com ilustrações de Laurent Cardon, que quer brincar com as palavras, quer provocar alegria, retomando as narrativas-poéticas de acúmulo. Já Maria e seu sorriso na janela, com ilustrações de Rafa Anton, pretende discutir um tema mais pesado, a morte, de forma leve, tênue, poética. Afinal, a vida é, independente de idade, conviver constante com seus paradoxismos. E se é bom escrever, melhor ainda ver que meus textos encontraram guarida num selo editorial e agora são pássaros que traçaram seus voos. Voos que espero certeiros, diretos ao coração de mais e mais leitores.
 
Ilustração de Rafa Anton, para Maria e seu sorriso na janela

sábado, 13 de outubro de 2012

Vicente vem vindo.

Há muito escrevi Vicente em Palavras. Não lembro mais em que ano sua história recebeu o ponto final. Depois, o envio a editoras que, em via de regra, diziam ser o tema pesado: a história de vida de um adolescente morto. E sua existência vai sendo apresentada ao leitor através das pessoas que conviveram com ele e que vão nos revelando, afinal, quem era Vicente, alguém que, agora, só pode existir a partir dos discursos, das palavras de quem o conheceu, de quem conviveu com ele. Proposta ousada que encontrou este ano guarida na Editora Lê, de Belo Horizonte-MG. E logo-logo, Vicente em Palavras estará disponível para quem quiser mergulhar na sua dor. Abaixo, um fragmento do início do livro.


Palavras do Henrique, o irmão mais velho — 1
 
 

            Te olho aí deitado, mano. Parece mentira. Todo o mundo chora, nossa mãe tá desesperada e eu quero chorar também, quero, mas fico pensando em ti e já nem sei direito se essa dor que sinto é dor de morte ou é alívio. Tu sempre foi o mais alegre, o mais esperto, o mais bonito, o mais namorador, o mais baladeiro, e eu ficava querendo ser tu. Tudo errado, tudo invertido. O irmão mais moço é que tem que admirar o mais velho. Com a gente, não foi assim. Sempre eu te espiando, eu te imitando no sozinho do quarto, eu tendo que ouvir das minhas colegas de aula o tanto de admiração que elas tinham por ti. Ficavam dizendo: O teu irmão é um gato. Mas, agora, um gato morto. Acidente fatal. Quem mandou ficar querendo se aparecer? Quem mandou ficar fazendo manobras radicais no skate? Quem? Agora tu tá morto, mano, e eu tô vivo. Eu, com meus óculos, com minha magreza, com minha timidez, com meu sorriso sem graça. Eu tô vivo e sou, de novo, filho único.
 
 
 

Fragmento do diário de Natália no dia do evento — 1
 
 
 
 

            É difícil. Bem difícil. O Vico lá e eu sem coragem de dar um beijo nele. Coisa mais maluca. Difícil de acreditar mesmo. O cheiro das flores. Eu até que gosto de flores. O calor insuportável de março. Bom pra ir pra praia. Não pra isso. Pra isso não. Os amigos em volta do caixão. O desespero da Marta. O meu namorado lá deitado. No rosto, a brancura dos mortos. Um beijo. Só um. Não tive coragem

 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Na lista do Jabuti

Para quem escreve (pelo menos comigo é assim), quando o nome de um livro aparece em uma lista de finalistas, a felicidade se instala. Sobretudo quando o prêmio se trata do Jabuti, um dos mais tradicionais do país. Em 2009, também estive por lá, com meu livro Meu pai não mora mais aqui, da Editora Biruta. Agora, é a vez de A filha das sombras (Editora Edelbra), lançado ano passado e que conta a história da Dora. Uma jovem que se vê imersa numa vida trágica, desde o nascimento.


Criar a história da Dora, misturar elementos da literatura fantástica com aspectos de intimismo, foi fascínio. Mergulho num mundo que se me foi revelando, aos poucos: ele e seus personagens de sonho e de real, na busca de construir uma atmosfera nonsense.

Enfim, bom estar entre nomes ilustres da literatura brasileira. Bom ser um dos finalistas. Bom.

sábado, 25 de agosto de 2012

Sopram novos ventos...

       Minha escrita, e gosto disso, ficou bastante focada em dois públicos: crianças e adolescentes. Todavia, embora livros infantis e juvenis tenham preponderância em minha bibliografia, não abandonei os textos adultos. Por vezes, surge um poema, um conto. Ou um projeto de livro de contos, como o que desenvolvi há alguns anos e que recebeu alguns nãos editoriais. Mas agora o vento sopra a favor destas histórias escritas durante um período bem longo, que, aliás, não sei precisar. Todavia, são contos que conversam entre si: dores existenciais, descobertas nem sempre felizes, que vão dando conta do existir de homens e de mulheres, alguns ceifados da vida ainda crianças. São mergulhos na vida, através de meu olhar, que poderia ser outro, sei, porém não foi.
 
 
      Gosto do gosto da dor ficcional. Gosto de ser dedo roçando na ferida viva do ser gente, gosto de coletar retalhos de imaginação que possam obrar o existir, através do fingimento que, por fingir-se, acaba por se tornar possibilidade.
      Assim, abaixo, um trecho de um dos contos de "Vento sobre terra vermelha", que lanço no dia 01 de setembro, a partir das 17h, no espaço cultural 8Inverso, rua Azevedo Sodré, 245, Passo da Areia, Porto Alegre.
 
       Tinha muitos livros. Pouco espaço, aliás, sobrava naquela peça da casa. Uma sala grande, duas janelas estreitas e altas, cortinas claras, uma mesa de madeira escura no centro, uma estatueta de um velho cavaleiro armado, e livros. Muitos. A biblioteca, assim ele a nominava. De onde vieram tantos volumes, ninguém nunca soube ou desejou precisar. Ter assim tantos, aquela quantidade de livros, impossível de ler tudo numa única vida, era coisa de louco ou, no mínimo, de quem muito pouco teria para fazer. Como Arno Kunz, médico aposentado, vindo com os pais da Alemanha ainda bebê, enrolado em cueiros. O Doutor, como era chamado por aquelas bandas. O Doutor, o homem dos livros. Como se foi no chegado, também não interessava. A fama se fazendo, quer pela propriedade da medicina, quer pelo inusitado dos espaços sendo tomados pelos livros. Hoje, não andava mais pelas fazendas e caminhos a tratar bicheiros e vermes em crianças, mas vez que outra ainda era acordado na noite para o ajude de um ou outro vivente querendo vir ao mundo e atravessado na barriga, assim estando, como ocorrido com a Marcela. Mundo tão cheio, e tantos no chegado, resmungava sua mulher, cada vez que o Doutor de posse de uma maleta branca, com cruz vermelha encimada, saía no trote da pequena charrete.
— É a vida no continuado, Clarice, a vida no prolongado.
 
Conto: O colecionador de livros
 
 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Book-trailler do Pedro Noite

A história do Pedro Noite nasceu há muito tempo, mas apenas virou livro em 2011. Meu primeiro livro escrito em prosa-poética surgiu de um depoimento que ouvi de meu amigo Pedro Francisco da Silva. Nele, Pedro revelava toda a dor do preconceito, assim como todo o prazer de descobrir-se diferente e, por isso mesmo, lindo. Uma história real, repleta de sofrimento, de segregação, que me encantou pelo tanto de vida presente nela. Daí, o desejo de vê-la livro se materializou em mim e ficou pedindo escrita. E ela nasceu em forma de canto, em forma dee poema; afinal a poesia é sempre canção primeva, sempre aponta para a origem. De tudo.
E Pedro Noite virou livro, graças à Eny Maia, editora da Biruta, que acreditou no potencial desta história de descobertas, e ao traço do Mateus Rios. E a Laura Linn, minha ex-aluna, hoje apresenta através desse book-trailler o meu (nosso) Pedro Noite. Que ele possa ser acolhido em seus corações-leitores. Segue link abaixo:
http://http://www.youtube.com/watch?v=nBB21Ny50Ms

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sempre fui meio reticente com esta história de E-book.
E a surpresa veio com a seleção de meu livro O outro passo da dança, da Artes e Ofícios (o vendido juvenil em 2010 e 2011), que foi o único livro gaúcho contemplado com a bolsa de tradução da Biblioteca Nacional. Agora, ele virou e-book, e em língua inglesa: The other dance step.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Escritos

Depois de alguns anos parado, retomo escrita de um juvenil. Parado em virtude de outros textos que acabaram tendo de ser escritos. Agora, sigo firme, sem interrupções, espero. Estou na página 40. Mais umas 30 e fecho a história, já toda arquitetada. Começa assim:

"Sempre há um não. E um tempo certo para dizê-lo. Se Susana soubesse disso, talvez tivesse sido uma filha revoltada; talvez tivesse gritado, brigado, chorado; talvez tivesse batido pé e dito que não sairia de sua cidade, de sua casa, de sua escola. Diria que não conseguiria viver sem suas coisas, sem seus amigos, sem as noites na casa da Clara.
Sem a Clara."

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Quatro livros selecionados pela Prefeitura de Fortaleza

Meus livros Meu pai não mora mais aqui e Pedro Noite, da Editora Biruta, O outro passo da dança, da Editora Artes e Ofícios, e O rapaz que não era de Liverpool, da Edições SM, foram selecionados pelo Programa de Modernização de Biblioteca da Prefeitura de Fortaleza.
Boa notícia neste início de 2012. Programas assim, além de fazer com que o mercado livreiro se movimente, faz com que livros possam, cada vez mais, ir ao encontro de leitores. Afinal, como já disse Castro Alves, aquele que semeia livros é bendito! E, para nós que escrevemos, aqueles que promovem a leitura e a aquisição de livros também se tornam benditos, pois propiciam que nos animemos a escrever mais e mais, na certeza de que a literatura tem um forte poder de transformação, visto que atua na criticidade e na emotividade. Mesmo que não percebemos.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Um ano de livros!

2011 me brindou com vários livros. Não apenas livros lidos (foram vários também, muitos deles incentivados pela iniciativa que segue com sucesso, a Confraria Reinações), mas publicados. Uma série de coincidências acabou fazendo com que este ano me presenteasse com 11 livros. Muitos deles infantis, algo que fazia tempo que eu não publicava, muito mais voltado que andava para a literatura juvenil. Onze livros. Muitos publicados pela Edelbra, que me auxiliou a realizar desejo antigo: um coleção de textos apenas meus. Saiu, portanto, na 57ª Feira do Livro de Poa, a coleção Sentidos: O olfato do rato, O tato do gato, O paladar do urso polar, A visão do pavão e A audição do leão.
E além destes, saíram A ciranda da bicharada e Tantos barulhos (minha primeira experiência como poeta. Pela Edelbra também saiu um juvenil, A filha das sombras (Coleção Medo). Estou na maior expectativa pra ver o que rolará: torcendo para que meus poemas possam ir ao encontro do coração dos leitores. E ainda, pela Biruta, saíram Pedro Noite e Eu e o silêncio de meu pai. E, para fechar a listagem de livros de 2011, pela Melhoramentos, saiu Um na estrada.
Agora é curtir esses livros todos, desejoso de saber que trajetória farão. Estou na torcida.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Um book-trailer

Novos livros. Ano cheio de livros. Isso é bom, todavia o amor acaba tendo pouco tempo para curtição, logo um novo texto surge e acaba tomando a atenção do escritor. O mais recente é mergulho em um pouco da minha infância, tem lá seu dado de invenção, sim, mas muito (muito mesmo) de memória. Eu e o silêncio de meu pai, da Editora Biruta, num projeto gráfico lindo e ousado, conta a história de um menino e seu pai, um menino que - protegido pela distância temporal - se aventura a reler sua infância, a entender o mutismo do pai, a entender o próprio passado. E o mais belo é que é meu primeiro livro a ter seu book-trailer, e mais belo ainda é que esse trailer foi realizado por uma ex-aluna, a Laura Linn.
O link no youtube é: http://www.youtube.com/watch?v=ZfDuXvP__H8

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Poetares


Sempre quis, mas sempre relutei. Um ou outro surgia vez ou outra, porém nada que tivesse unidade ou que pudesse ser pensado como livro. Aí, veio a ideia de poetar barulhos. E foi o que fiz: saí a colher os ruídos mais comuns, mais estranhos, barulhos presentes em nossa vida. E, com o traço lindo da Martina Schreiner, meu primeiro livro de poesia acabou ganhando forma.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Um na estrada

A escrita de um livro, na maioria das vezes, desconhece a publicação. Lançar-se ao trabalho de dar vida a um personagem, de construir suas dores, sempre é mistério, pois a garantia de publicação, quando ele não é um pedido de uma editora, é apenas possibilidade. Quantos livros estão guardados em gavetas ou salvo em pastas de compuadores por esse mundão a fora? Assim, quando uma história encontra guarida em uma casa editorial, um dos motivos por que ela foi escrita — ir ao encontro de leitores — se realiza.


Pois esse mês recebi o Um na estrada, minha estreia individual na editora Melhoramentos.

Livro que surgiu de um encontro inusitado (e nunca mais repetido) com um jovem homônimo do meu personagem, que me encantou com sua visão whatever da vida: não trabalhava, julgava que jamais iria trabalhar, deixava-se aproveitar as oportunidades que a vida lhe dispunha, como, por exemplo, fazer um curso de desenho sem que jamais tivesse tal habilidade, sonho, desejo. A vida, pois, me apresentava ali, sem nenhuma máscara, um personagem fascinante. Personagem que pega a estrada, na tentativa de fugir da atmosfera familiar, que não lhe premia com coisa boas. Esse o meu Davi, esse o meu solitário na estrada.

sábado, 16 de julho de 2011

Tantos barulhos

Ando poetando ruídos, sons, barulhos. Mergulhar nas palavras poéticas tem sido caminho de desafio para mim. Acertar a justa medida entre a reflexão sobre a vida e o brincar é algo que admiro por demais em alguns poetas. Acho a forja das palavras poéticas exercício mais árduo do escrever. E tem gente que o faz com tanta naturalidade, com tanta sensibilidade.
Eu quero ser aprendizagem poética.
Estou tentando.
Logo meus poemas se entregarão aos olhares infantis. Sou aguardo.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O meu retrato

Gosto de adaptações. Não aquelas que mutilam o original, não aquelas cujo adaptador quer reescrever o clássico. Gosto de textos que conversam com o texto-mãe, aqueles cujo adaptador pede a bênção ao autor e tenta ser ponte entre o original e o jovem.
O desejo de mergulhar em um clássico, percebendo seu potencial de atração ao público jovem contemporâneo sempre me seduziu. A primeira experiência (e dizem que a primeira jamais esquecemos) veio com Notre-Dame de Paris, do Victor Hugo. Texto gótico, com seu jogo de sensualidade, de dor, de abdicação, que sempre me atraiu pelo tanto de emoções que suscita entre os personagens e no leitor. Depois, ano passado, enveredei pela adaptação de um clássico para as crianças: Aladim e a lâmpada maravilhosa. E agora, não faz muito, minha adaptação para o clássico do Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray, se torna livro, se torna possibilidade de encontro com os jovens. A história do jovem Gray e o tanto de sobrenatural que o envolve é sedução plena. A tentativa de permanecer jovial e belo acaba por destruí-lo como gente. E se o retrato pereniza Dorian, quero mais é que minha versão possa também perenizar o clássico de Wilde no coração de muita gente que se inaugura na leitura de clássicos.