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segunda-feira, 23 de março de 2020

Tempos de reclusão

          Ando por casa; aulas presenciais interrompidas, encontro com os alunos ocorrendo por ambientes virtuais. Tudo segue dentro das possibilidades que a tecnologia hoje oferece. Creio que não é a mesma coisa que a discussão olho no olho que a sala de aula propõe. Sempre, acho, o contato físico superará a tecnologia. Ela é útil, por vezes, como agora, necessária, a fim de que tudo não paralise de vez. Assim, preparo e dou aulas, leio, aproveito também para escrever. Na verdade, digito meu novo original, que tem como título provisório "O sobrevivente" (muito a ver, aliás, com estes tempos vividos) e que foi escrito todo de forma manuscrita. Achei necessário usar este recurso da escrita manual em virtude da estrutura que escolhi para contar a história do Francisco.
          Mas quero falar de um tempo outro: um tempo de infância ou de adolescer, não lembro bem. Tempo, todavia, de reclusão, como este agora. Eu era guri e um surto de caxumba atacou a alegria de se ser pessoa com poucos compromissos. Amigos iam, um a um, contraindo a doença, que exigia que se ficasse de resguardo, diziam que se não nos cuidássemos, ela poderia "recolher" e a gente se tornaria estéril. Ter filhos ou não, naquela época, não era desejo. Todavia, a forma como os adultos falavam com a gente concedia um tom de maldição:  "Se não se cuidar, ficará estéril". E eu perguntava, meio medroso: "O que é ficar estéril?". E aí, num tom de voz penumbroso, vinha a resposta: "Nunca poderá ter filhos como todas as outras pessoas". Ora, é claro que, quando se é criança ou adolescente, o que mais se deseja é ser como os outros. A diferença parece ter um dado de rejeição, de marca de Caim.
          Pois foi, então, que a caxumba resolveu atacar meu irmão. Minha mãe exigiu a reclusão dele, queria proteger o filho. Todavia, como ele reclamava da solidão, coube a mim a tarefa de ficar com ele em casa. Eu, saudável; e a rua lá fora, que me esperava com sua possibilidade de alegria, de fantasia, de imaginação. Fui um garoto lotado de criatividade: inventava brincadeiras, jogos; criava personagens, histórias. Qualquer pedaço de graveto poderia virar um monstro; qualquer flor, uma princesa necessitada de proteção. Meu irmão era mais realista, curtia jogar bola, cartas, coisas que não exigiam uma mente tão fantasiosa. Assim, fiquei eu preso com ele, eu que de caxumba nada sabia. 
         Então, meu irmão ficou curado, a rua o acolheu com os braços abertos. E eu? Eu fiquei com a caxumba dentro de casa. Depois que ela o abandonou, não é que a danada resolveu fazer morada em mim? Novamente, a rua não era minha. Agora por uma interdição maior ainda. Eu não era o acompanhante do irmão adoentado; eu era a própria doença. E meu irmão? Ficou solto na rua a empinar pipas, a correr atrás da bola. Eu vendo tudo por detrás da vidraça, como agora, mas com a mente livre, repleta de fantasia e de imaginação, não carecia de companhia. Eu tinha toda e qualquer presença que desejasse.. Atrás daquela janela, era João preso na casa da bruxa, era Rapunzel em sua torre, era o que eu queria ser.
         Nestes tempos de vidraças e de portas fechadas, neste tempo de pouca rua, façamos isto: um mergulho em nós mesmo por meio da imaginação e da fantasia. Livros, séries, filmes ajudam a fortalecer nossa mente. Escrever também.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Azuis desmaiados

       Meu pai tinha olhos azuis e eu os herdei. Somos sete filhos e, dos sete, apenas dois têm olhos azuis. Eu sou um deles. Todavia, os meus azuis não trazem em si o brilho e a cor presente nos olhos de meu pai. Tenho olhos azuis desmaiados. Eles só são perceptíveis caso eu esteja com roupa azul ou preta. Aí o azul realça e as pessoas me olham e dizem: "Nossa, você tem olhos azuis".
         "Desde que nasci", costumo responder.
Lembro que quando guri isso era motivo de decepção. Ficava me perguntando de que adianta ter algo que o senso comum julga ser bonito se ninguém (ou poucos) nota? Tem-se um tesouro e não se pode aproveitá-lo.
          Durante muito tempo fui assim: alguém que acreditava não ser possuidor de beleza qualquer, apesar de algumas pessoas costumarem elogiar minha inteligência, minha liderança, minha escrita, minha criatividade, meus cabelos crespos e, de vez em quando, meus olhos azuis desmaiados.
          Vivia quando adolescente, uma realidade que sempre julguei pouco afável a mim. Hoje creio que era algum probleminha de autoestima, não sei. Na verdade, na maioria das vezes, eu não gostava daquele cara que me olhava do espelho. Poxa, ele podia ter cabelos lisos, podia ter menos espinhas naquele rosto tão claro, podia ao ir ao sol ficar bronzeado e não avermelhado, podia não ficar vermelho (o rosto pegando fogo) ao sentir vergonha, podia ter olhos azuis bem azuis. E eu ficava querendo tanto poder que, por vezes, era incapaz de perceber o que tinha, o que era.
          A vida na adolescência tem um tanto de abismo entre o ser e o querer ser. Um dia, esta distância abissal diminui. 
É certo, diminui.

domingo, 28 de julho de 2019

Sobre timidez.

          Sempre fui tímido. Desde criança. 
          Lembro que na escola para mim sempre foi uma espécie de tortura ter que ler algum texto em voz alta, ter que ir à frente da classe apresentar algum trabalho, ter que ler respostas de alguma tarefa extraclasse. Tudo isso sempre foi muito sofrido, sofrido demais. 
Quando adolescente, eu até respirava fundo e, atormentado pela timidez mas apoiado pelos colegas que se posicionavam ao meu lado (ter alguém por perto sempre nos fortalece, sobretudo se este alguém passa por algo semelhante ao que estamos passando. Jovens são assim: têm essa capacidade de tornar forte o fraco), ia à luta, executava a tarefa. Todavia, se eu pudesse me escapar dela, me escapava. É estranho olhar para esse guri que fui e tentar descobrir que medos me impediam de ir à frente, já que eu dominava o conteúdo, já que - na maioria das vezes - tinha feito quase sozinho o trabalho? 
           Adolescer é território de medos, também.
          E muitas vezes o universo que habitamos (o colégio, a casa, os problemas familiares: tantos, muitos) nos impede de encarar de frente estes medos. Assim, vamos lidando de forma amadora com eles. E isso não é bom: atordoa, inibe, segura nossos desejos, nossas capacidades. É certo que podemos ser mais felizes se tivermos a coragem de dar o primeiro passo em direção àquilo que nos amedronta.
          Timidez ou medo. Medo ou timidez. Os dois, talvez. 
          Hoje, quando olho para o Caio que fui, percebo o tanto de tristeza estampada nas poucas fotos daquela época, percebo a tristeza também cercando as minhas lembranças de um tempo que existe apenas para nos trazer surpresas.
          Até publiquei, há um tempo atrás, a história do Alexandre, um guri que se encontra no leito de um hospital aguardando a manhã em que fará um transplante de medula. Alexandre tem leucemia. E tem amigos, dois parceiros bem legais, que o enchem de afeto. Alexandre é adolescente. Ele sabe que a adolescência é um Tempo de Surpresas. E elas nem sempre são boas. 


O tempo das surpresas, SM Edições.