terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Caio e os escritores: Lygia


Foi em 1999, na Feira do Livro de Porto Alegre, que encontrei e conversei pela primeira vez com aquela que considero a dama da literatura brasileira: Lygia Fagundes Telles. Autora de contos, crônicas e alguns romances, Lygia, com certeza, é uma das maiores vozes em atividade na Literatura Brasileira. Seus romances Ciranda de pedra, Verão no aquário, As meninas, As horas nuas, e um livro de contos, Invenção e Memória, foram o corpus de minha tese de doutorado, defendida em 2005, na UFRGS: A dor do passar, a cerimônia ficcional de Lygia Fagundes Telles. Ler, reler, enveredar por seu universo de sonho que aponta pra uma realidade que precisa ser reinventada é sempre surpresa e desacomodamento. Literatura que nos leva à reflexão. É seu um dos contos de que gosto muito pelo tanto de simbologia que contém: Natal na barca.


"Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor era silêncio e treva. E me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu." In: Venha ver o pôr-do-sol e outro contos, ed. Ática.

10º encontro da REINAÇÕES

A REINAÇÕES tem sido em minha história de escrita e de leitura uma boa surpresa. Ocasião de ler livros ainda não lidos, assim como de voltar a histórias já lidas, podendo comprovar se ainda causam o mesmo efeito, a mesma emoção, ou, ainda, descobrir novidades através dos diversos olhares em torno da mesa na LETRAS & CIA. E cada debate é, além de encontro com páginas literárias, além de mergulho em produções voltadas para crianças e adolescentes (mas que também encanta adultos. Esta a certeza dos aspectos artísticos de um texto: aquele que encanta, sem necessidade de rótulos outros que não, e apenas, o de Arte), também momento de encontro com pessoas apaixonadas pela literatura. E dia 21 de fevereiro, será o 10º Encontro da Reinações. Com coordenação de Carla Laidens, enveredaremos pela estrada de tijolos amarelos, acompanhados de Dorothy e de seus amigos, ao encontro do grande e terrível OZ. Abaixo, o convite.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Caio leitor 1: Reinações de Pollyanna


Em janeiro, no dia 24, os confrades se reuniram mais uma vez. O 9º Encontro da Reinações: confraria da leitura de textos literários para crianças e adolescentes teve como tema o livro de Eleanor Porter, Pollyanna. A singela história da menina órfã que vai morar com sua tia Polly e acaba por transformar a vida de todos os que habitam aquele triste lugar. Após trocar idéias com meus amigos confrades, a menina e seu Jogo do Contente não me saíam da cabeça. Assim, como cerimônia de exorcismo literário, escrevi breves impressões sobre o livro.


Pollyanna: o toque de Midas

Caio Riter

Apesar de escrito em 1912 e, portanto, um texto quase centenário, Pollyanna, de Eleanor Porter, ainda atrai. Talvez pela preocupação da autora em apenas narrar uma história, algo perceptível em algumas demasiadas repetições ou reincidências, estrutura costumeira no contar oral. Quem teve a felicidade de ter em sua infância um adulto contador de histórias a seu lado sabe do que falo. As narrativas orais têm muito de inconstância, de “lacunas”, de repetições que desafiam a atenção do ouvinte. Tal estrutura é perceptível em Pollyanna, possivelmente pelo fato de esta novela juvenil ter sido publicada primeiramente em forma de folhetim, o que resulta numa narrativa com estrutura linear. Os flash-backs, se assim os podemos chamar, se dão, em sua maioria, pela fala das próprias personagens a referirem fatos e acontecimentos que não foram apresentados pelo narrador e que surgem em meio aos diálogos, informando ao leitor alguns hiatos no texto.
Todavia, creio, o livro de Eleanor Porter segue sendo convite, sobretudo, por apresentar uma personagem que acredita na vida, que acredita no sonho, que acredita que é possível ver-se uma situação adversa a partir de um olhar otimista, bondoso, renovador. A jovem protagonista, nesse sentido, apresenta-se como alguém que possui um objetivo de vida: não sofrer. Mas não apenas isso. Não é apenas a ausência da dor individual que Pollyanna busca. Ela quer mais. Pretende “contaminar” a realidade que a cerca, transformando uma cidade cinza, cheia de pessoas carrancudas, num universo de alegria, em que a atmosfera reinante possa ser fonte de alegria. Assim, vai, aos poucos, ensinando a todos que encontra o Jogo do Contente e, embora algumas vezes sofra resistência, sua convicção em ensinar o jogo, faz com que seja capaz de manipular as ações dos outros, a fim de atingir seu objetivo, como pode-se perceber no momento em que leva à Sra. Snow, uma cesta com tudo o que ela podia pedir, visto que a mulher, sempre queria aquilo que não lhe era trazido.






Assim, como o mitológico rei Midas, que ao tocar em seres e objetos os transforma em ouro, a menina traz aos que a cercam uma possibilidade “dourada” de ver o mundo, as pessoas, as situações que enfrentam. No entanto, diferentemente do monarca, que é levado a um final trágico em virtude de seu toque mágico; Pollyanna é conduzida à redenção. A diferença entre os dois, talvez, se resuma aos objetivos que os impelem: o rei quer riqueza, numa perspectiva egoísta, centrada em si; a garota quer ver sua realidade mais amena, mais leve, mais feliz.
Pollyanna encarna, creio, ao mesmo tempo, a inocência e a peraltice tão comuns às crianças e aos adolescentes. Daí sua atualidade, daí ainda sua necessidade de leitura. É preciso, apesar de todas as adversidades que o mundo moderno oferece às gerações futuras, acreditar no sonho, acreditar que a transformação é possível. E, nesse sentido, Pollyanna é convite.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Palavras 2


MEMÓRIA - As lembranças têm sempre seu lado de invenção, de dúvida. Nossa memória é mesmo nossa? Em que medida o tempo não acaba sendo matriz ficcionalizadora das imagens que nos vêm de um passado distante e que, exatamente pelo mergulho no cinza do ontem, acabam por emergirem fantasiadas? Memória tem seu tanto de mentira. Sempre.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Gênese de um livro: Meu pai não mora mais aqui


Conheci o Tadeu Fiorentin através de um trabalho de Literatura que a escola dele, no município de Nova Bassano-RS, promoveu. A professora Marli sugeriu que seus alunos enviassem e-mails ao autor do livro que tinham lido: eu. Assim, meus primeiros contatos com o Tadeu foram virtuais: e-mails; depois, MSN. E, nas conversas com o adolescente de 14/15 anos (isso foi em 2005) que me falava de sua vida, partilhava seus sonhos, pedia conselhos, eu ia recuperando um tanto de meu tempo de adolescer. Nostalgia total. Experiência bacana em que as quase 3 décadas de distância não foram empecilho. Nossas conversas eram troca entre dois tempos que se encontravam, tendo como essência o gostar de livros. Pois num destes encontros no MSN, o Tadeu, meio indignado, me contou que sua professora de Português lhe dera como tarefa a confecção de um diário. Nele, deveria registrar seus afazeres, sua rotina, suas expectativas em relação à etapa que se encerrava. Eu tentei aconselhar meu amigo, dizendo-lhe que seria legal escrever um diário. "Imagina, cara, daqui a alguns anos, tu poderá saber o que pensava o Tadeu-adolescente". Não o convenci muito, mas eu, que já pensava em escrever a história de uma jovem cujos pais se separam e ela tem dificuldade em aceitar a nova situação, descobri naquela conversa que poderia estruturar meu novo livro em forma de diário. Através da escrita, a protagonista iria vencendo suas dificuldades. E descobri mais: que poderia, ao invés de criar um diário, organizar o livro em forma de dois: um diário de uma garota, um de um garoto. Com certeza, seriam preocupações distintas. Uma guria escreveria coisas diferentes de um guri. E mais: decidi que o guri seria o Tadeu. Quer dizer, não bem o Tadeu real, mas um Tadeu criado à imagem e semelhança do verdadeiro. Aí fui "dando corda" pro meu amigo, fui perguntando mais sobre sua vida, seus desejos e tal, inclusive "colando" frases literais digitadas por ele, frases espirituosas, repletas de verdades adolescentes, e que foram para o livro de forma literal. Assim, e como diferente não podia ser, meu personagem foi se tornando nosso. Mandava fragmentos do livro pro Tadeu e vibrava com a sua enorme vibração ao ver-se ficcionalizado, matéria-prima de meu novo livro, a sair em 2008, pela Biruta, num projeto gráfico bastante ousado, que espero dar o que falar.
Dia desses, o meu personagem veio me visitar em Porto Alegre. Dia bacana. Dia de encontro e de mais troca. Ambos ansiosos pra ter o Meu pai não mora mais aqui, de fato, entre as mãos. Experiência de criação singular para mim. (Na foto, nós dois.)

Fragmento de Meu pai não mora mais aqui:
"Na real, ela deve tá é querendo bisbilhotar a vida da gente. E o pior é que a minha mãe é amiga dela. Imagina se escrevo umas coisas pesadas e ela conta pra minha mãe? Tou frito. Também, fui arrumar uma professora amiga da minha mãe. Pode? Mas, nessa cidade, tem alguém que não se conheça? Ter até tem. Não conhecer de não se falar, mas de não conhecer de verdade não tem não. Na aula até tem umas gurias e uns guris com quem eu nunca falei, mas sei quem são eles. Sei sim.
Um diário. Pode?
O Cau disse que vai escrever um monte de bandalheira. Já pensou? Eu tô fora. Mas escrever o quê?
Querido diário, hoje acordei triste, tá louco."

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Palavras 1

ESPELHO - Espelhos atraem pela possibilidade de mergulho no dentro da gente mesmo. Aquele outro que nos espia, tão a gente, e tão não nós. Reflexo tosco. Mentiroso. Estranho isso: espelhos só mostram da gente o que a gente quer ver.


Inícios de reinações


Quando lançamos novo livro ao encontro do coração dos leitores, ficamos como pais aflitos a olhar seus filhos se perderem na distância dos tantos e necessários vôos que precisam dar. Pois na 53ª Feira do Livro de Porto Alegre (Novembro/2007), autografei meu novo livro Um reino todo quadrado, editado pela Paulinas e ilustrado por Rosinha Campos. E o pequeno começa a dar seus primeiros passos, a fazer suas primeiras "reinações". E que venham muitas!
Abaixo segue breve resenha colhida nas ondas da internet:
Era uma vez um reino todo quadrado e azul. Mas um dia, nasceu Redondo-vermelho... E as pessoas tiveram que rever seus conceitos sobre o diferente. O tema 'diversidade' sempre gera discussões interessantes e propiciam diálogos sobre o respeito e convivência dentro de um grupo, porque enriquecem as idéias dos envolvidos. Afinal é no calor das discussões que melhoramos como seres humanos! Tratar a escola como um espaço de valorização do indivíduo, atribuindo-lhe responsabilidades para a construção de uma sociedade mais justa é a proposta de Caio Riter que recorre ao humor para criar uma narrativa leve e prazerosa, carregada de mensagens que levam o leitor à reflexão sobre 'estar no mundo'. Além disso, é na biblioteca que Redondo- vermelho descobre um jeito de transcender aquele reino, meio chatinho, só de quadrado e azul. Riter bate o martelo - a leitura é um agente transformador dentro de uma sociedade.
Resenha publicada em
www.rainhadapaz.g12.br/servicos/biblioteca/catalogo/literaturaInfantil_2.htm