
MAR - Águas marinhas são sempre desejo de partida, quer do peixe, quer do grão de areia, quer daquele que lança íris para além. Quer do próprio mar.
Conheci o Assis Brasil através da leitura de seus romances, antes de ter o prazer de conviver com ele nas atividades da Oficina Literária da PUC. Narrativas fortes, contundentes. Carreira que venho acompanhando desde que Cães da Província, primeiro livro lido, quando eu ainda cursava Jornalismo, me tomou por completo. Livro bom é assim, aquele que nos envolve de tal forma que não podemos abandoná-lo antes do ponto final, que, de fato, não finaliza. Livro bom ecoa no dentro da gente. E a obra desse amigo e mestre tem feito isso comigo: seus personagens tornam-se presença constante. Lembro que com As virtudes da casa foi assim: a história de Isabel, Jacinto e Micaela, vista sob diversos ângulos, me fez ser desejo de mais leitura. Tanto que, durante atividades do mestrado, escrevi o artigo Uma casa sem virtudes: a desmitificação do gaúcho em Luiz Antonio de Assis Brasil, publicado na Ciência & Letras 28 (2000, FAPA), em que analiso o processo de desconstrução da figura mítica do gaúcho que Assis problematiza neste romance, que, para mim, junto com Música Perdida, são dois marcos na literatura produzida por Assis.
2007 foi ano legal. Não só pelas publicações, mas, sobretudo, pelo tanto de convites que recebi para participar de encontros com leitores, quer em escolas, quer em feiras de livro (E quantas há espalhadas por esse Rio Grande em que a leitura tem espaço de destaque e o autor é valorizado!). Muitos foram os quilômetros rodados, muitos os debates, as trocas de idéias, as emoções trocadas entre o que escreve e os que lêem, intermediadas, na maioria das vezes, por professores lúcidos e sensíveis (Ah, como a Literatura carece de mestres!). Mas emoção maior sempre se dá quando ocorre encontro vivo entre autor e personagem. E foi o que aconteceu na cidade de Montenegro, em agosto: uma professora me chama, eu me volto e me dou de cara com a Eduarda, protagonista de Eduarda na barriga do Dragão (Artes e Ofícios, 2006). A menina que a personificava, abraçada em suas duas bonecas — a Zoé e a Letícia — tinha olhos de brilho carinhoso. Ela, a Eduarda real, também encantada em poder ser a Eduarda de papel. (Foto: Cristiane Tain)
Heróis são seres especiais. E necessários. Gosto destes seres fantásticos que, com seus poderes, lutam contra o mal, buscando salvar o mundo e instituir um novo universo de relações. Todavia, por vezes, o mal contra o qual eles lutam é o mesmo que os habita, que os atormenta. Alguns super-heróis são assim. Não possuem aquela retidão de caráter que, geralmente, se espera nesses homens e mulheres “da lei”. São retos e, ao mesmo tempo, impetuosos; justos e vingativos; duplos. E essa ambigüidade é que os torna mais e mais sedutores.