
domingo, 16 de agosto de 2009
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
sábado, 8 de agosto de 2009
Gente Nova 11: Anne Minuzzo
Anne Minuzzo é graduada em Letras e atualmente cursa Literatura Brasileira na UFRGS. Iniciou no teatro em 1994, participando de oficinas-montagens e espetáculos infantis. A partir de 2000, ao escrever e dirigir o espetáculo Badalas Mortais, descobriu na dramaturgia o seu verdadeiro caminho: escrever e adaptar textos para teatro. Recebeu prêmios pelos textos: Badaladas Mortais e Paixão Latina. Anne também circula pela crônica e pela poesia.
Creio que foi Foucauld ( cito de segunda mão, não consegui ainda passar das primeiras páginas) que falou a respeito de "acreditar no discurso". Isso me leva à idéia de aceitação do pacto ficcional. Aquela coisa de comprarmos a idéia do que lemos, compactuar com o autor, aceitar o que se lê como real.Mesmo que se saiba que é ficção, que não é real ( e mesmo o relato de experiências verídicas, quando escritas, são sempre uma representação), compactuamos. Sentimos, sofremos, rimos, especialmente com aqueles escritores bruxos ( do Cosme Velho ou não). As personagens se tornam quase que pessoas reais e palpáveis.
Mas falo de literatura. E ponto.
Nova linha, parágrafo: a vida não é literatura, aliás, Pessoa disse, o sol doura sem ela. Eu não vivo sem, mas não espero que outros sejam como eu. Gostaria até, mas não espero mais. Mas: a vida é isso aí, do cotidiano, de abrir os olhos, sair pra rua, coexistir - pelo menos em teoria.Então chego onde eu queria realmente chegar e não conseguiria sem uma básica introdução: é possível aceitar o pacto ficcional, acreditar no discurso da vida chão-chão?Antes de ser possível ou não, deve-se fazer isso? É assim mesmo que tem que ser?
Devo estar sendo naive ( french words em tua homenagem, Nisemblat), mas, eu ainda não sei jogar o jogo. Esse grande teatrão que virou a vida, desde o sorriso falso, a aquiescência forçada, as amabilidades fúteis ( até então, digamos, estaríamos no terreno "soft", talvez) ao engolir sapos que ficam trancados na garganta.Porque o bizarro, o irreal, o absurdo, o insuportável, tudo vai virando discurso que se aceita, pacto ficcional que saiu da literatura pra vida-vida mesmo. Aquela de ir trabalhar, pegar ônibus, atravessar avenidas, frequentar o comércio. Digo: não é possível que as pessoas não percebam que tudo é, cada vez mais, uma representação e a gente é, na maioria, aqueles extras que passam ao longe na cena e que nunca levam o nome nos créditos. Que tudo é uma grande manipulação.
Cada um escuta, acredito, o eco da verdade em uma altura diferente. Eu, às vezes, quase me ensurdeço - mas fico pensando se eu mesma não estou fabricando esse efeito sonoro pra me candidatar ao Oscar desse categoria imaginária pra esse filme extenso e incompreensível do qual eu faço parte. Da qual a comida, a cor em voga, a marca, a bebida mais nova, o arremedo de moda que respinga nos balaios e liquidações das lojas de departamentos, fazem parte.Tudo vira camada sobre camada de algo genuíno, primevo, que vai desbotando, vai esmaecendo.
É, talvez, uma tentativa de buscar o meu primitivo. Bonito dizer que a arte, a literatura, salva. Salva porque ilude. E ilusão é proteção. A arte imita a vida, lembra? Mas quando a vida começa a imitar a arte, e o surrealismo, que devia estar dentro da moldura daliniana, por exemplo, começa a invadir e transformar a vida-vida nessa representação esquizofrênica, nesse frenesi de mentiras e discursos que de tão falsos são críveis, eu quero que a arte seja mais arte e menos vida.
A vida, esse negócio genuíno e primevo.
E escrever, esse é o meu genuíno e primevo. Mesmo que seja um tatear na neblina, ainda é o espaço em que o pacto ficcional está em seu lugar à parte: no seu verdadeiro lugar.
Water lillies, de Monet
Creio que foi Foucauld ( cito de segunda mão, não consegui ainda passar das primeiras páginas) que falou a respeito de "acreditar no discurso". Isso me leva à idéia de aceitação do pacto ficcional. Aquela coisa de comprarmos a idéia do que lemos, compactuar com o autor, aceitar o que se lê como real.Mesmo que se saiba que é ficção, que não é real ( e mesmo o relato de experiências verídicas, quando escritas, são sempre uma representação), compactuamos. Sentimos, sofremos, rimos, especialmente com aqueles escritores bruxos ( do Cosme Velho ou não). As personagens se tornam quase que pessoas reais e palpáveis.
Mas falo de literatura. E ponto.
Nova linha, parágrafo: a vida não é literatura, aliás, Pessoa disse, o sol doura sem ela. Eu não vivo sem, mas não espero que outros sejam como eu. Gostaria até, mas não espero mais. Mas: a vida é isso aí, do cotidiano, de abrir os olhos, sair pra rua, coexistir - pelo menos em teoria.Então chego onde eu queria realmente chegar e não conseguiria sem uma básica introdução: é possível aceitar o pacto ficcional, acreditar no discurso da vida chão-chão?Antes de ser possível ou não, deve-se fazer isso? É assim mesmo que tem que ser?
Devo estar sendo naive ( french words em tua homenagem, Nisemblat), mas, eu ainda não sei jogar o jogo. Esse grande teatrão que virou a vida, desde o sorriso falso, a aquiescência forçada, as amabilidades fúteis ( até então, digamos, estaríamos no terreno "soft", talvez) ao engolir sapos que ficam trancados na garganta.Porque o bizarro, o irreal, o absurdo, o insuportável, tudo vai virando discurso que se aceita, pacto ficcional que saiu da literatura pra vida-vida mesmo. Aquela de ir trabalhar, pegar ônibus, atravessar avenidas, frequentar o comércio. Digo: não é possível que as pessoas não percebam que tudo é, cada vez mais, uma representação e a gente é, na maioria, aqueles extras que passam ao longe na cena e que nunca levam o nome nos créditos. Que tudo é uma grande manipulação.
Cada um escuta, acredito, o eco da verdade em uma altura diferente. Eu, às vezes, quase me ensurdeço - mas fico pensando se eu mesma não estou fabricando esse efeito sonoro pra me candidatar ao Oscar desse categoria imaginária pra esse filme extenso e incompreensível do qual eu faço parte. Da qual a comida, a cor em voga, a marca, a bebida mais nova, o arremedo de moda que respinga nos balaios e liquidações das lojas de departamentos, fazem parte.Tudo vira camada sobre camada de algo genuíno, primevo, que vai desbotando, vai esmaecendo.
É, talvez, uma tentativa de buscar o meu primitivo. Bonito dizer que a arte, a literatura, salva. Salva porque ilude. E ilusão é proteção. A arte imita a vida, lembra? Mas quando a vida começa a imitar a arte, e o surrealismo, que devia estar dentro da moldura daliniana, por exemplo, começa a invadir e transformar a vida-vida nessa representação esquizofrênica, nesse frenesi de mentiras e discursos que de tão falsos são críveis, eu quero que a arte seja mais arte e menos vida.
A vida, esse negócio genuíno e primevo.
E escrever, esse é o meu genuíno e primevo. Mesmo que seja um tatear na neblina, ainda é o espaço em que o pacto ficcional está em seu lugar à parte: no seu verdadeiro lugar.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Alice e eu
Há livros que ficam tatuados na alma da gente e, por vezes, nem sabemos os motivos. Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, é um destes livros apaixonantes, pelo tanto de magia que possuem e pelo tanto de enigmas que o circundam. fico lendo e relendo, fico colecionando suas diversas edições, traduções, adaptações, talvez como tentativa de, cada vez mais, me assenhorar dele. A menina mergulhada naquele mundo regido pelo inusitado, pelo inesperado, é sempre susto e desejo de quero mais. Parece aquela sensação que se tem naqueles grandes parques de diversões, ao se observar as pessoas rindo e sofrendo ao mesmo tempo. Tensão e festa.

Mia Wasikowska será a Alice
Pois vi, dia deste, um breve vídeo sobre a versão cinematográfica que Tim Burton está realizando para Alice. Com certeza, o diretor reforçará no texto de Lewis seu universo grotesco e bizarro. A espera já é ansiedade. Varro a internet à procura de notícia, de traillers (originais ou não), de imagens ou da data de estreia no Brasil. O filme vai usar computação gráfica, captura de movimentos e animação stop-motion (como em A Noiva-Cadáver).
Caso você ainda não tenha lido Alice no País das Maravilhas, a melhor edição é da Zahar, pois ela traz comentários interessantes sobre as intenções do autor ao usar determinadas referências ou poemas no texto, além de trazer também a sequência Alice através do espelho. Outra tradução adequada é a de Ana Maria Machado, para a coleção Eu Leio, da editora Ática, que "abrasileira" os poemas, usando textos do folclora nacional e fazendo com eles o mesmo que Lewis propôs no original.

Mia Wasikowska será a Alice
O Chapeleiro Maluco será vivido por Johnny Depp
Rainha Branca, por Anne Hathaway
Caio Leitor 11: Alice no país das maravilhas

Um périplo no território da desrazão
A loura e pequena menina perdida num mundo repleto de fantasia já deu muito pano para manga, desde versões cinematográficas — a mais famosa talvez seja a da Disney (1951) — até reflexos na própria literatura. Depois da Alice de Lewis Carroll, nenhum outro personagem homônimo poderá fugir de refletir-se no espelho daquela que sonhava com um mundo onde os animais falam, as rainhas são enlouquecidas, o real não tem espaço. Personagens como, por exemplo, a protagonista de Reunião, de Lya Luft, ou a do conto Emanuel, de Lygia Fagundes Telles. Ambas perdidas, exiladas da realidade. Enfim, seres em busca.
Alice no país das maravilhas foi publicado em 1866, pelo jovem Charles Dogson, que se escondeu atrás do pseudônimo famoso, a fim de relatar as aventuras imaginadas e contadas para Alice, a predileta entre as três filhas do diretor da Universidade de Oxford. Andávamos, então, pela segunda metade do século XIX. Época em que subia ao trono e implantava um estilo marcante de governo, por mais de 60 anos, a rainha Alexandrina Vitória, mulher extremamente austera e obstinada que conduziria a Inglaterra a inúmeras conquistas e ao patamar de grande metrópole.
E o texto, que em princípio surgira com o intuito de agradar à pequena amiga, acabou por tornar-se um dos maiores clássicos da literatura infantil e a obra-prima de Carroll. A quem, hoje, alguns acusam de pedófilo por fotografar meninas seminuas, entre elas, Alice. Postura, no mínimo, ousada para uma Inglaterra de princípios morais extremamente rígidos. Mas isto é outra história. O que nos importa a biografia do autor, quando nos deparamos com um objeto singular em sua construção estética?
Embora este livro tenha entrado para a história da literatura como uma obra infantil, não se pode deixar de ver nele uma profunda crítica à sociedade inglesa e às suas estruturas. Carroll cria um mundo fantasioso e fantástico, em que se encontra a desconexa peregrinação da menina em busca de algum sentido para aquele universo, em que inexiste espaço para a razão. Imersa num mundo insólito, vítima da própria curiosidade, Alice tenta racionalizar, procura compreender as razões que organizam aquele ambiente confuso. Razão que parece ser a desrazão, a própria falta de limites racionais. Como encontrar outra resposta? Não estaria o autor querendo, exatamente, problematizar a questão, relativizando as fronteiras que separam real e sonho? Alice está perdida, longe de casa, da família, da gata Dinah. E longe de seu mundo organizado pela mão-de-ferro do estado, a pequena vaga meio tonta, sem saber direito para onde ir, mas percebendo que a única coisa que lhe resta é caminhar. Sempre.
Alice no país das maravilhas foi publicado em 1866, pelo jovem Charles Dogson, que se escondeu atrás do pseudônimo famoso, a fim de relatar as aventuras imaginadas e contadas para Alice, a predileta entre as três filhas do diretor da Universidade de Oxford. Andávamos, então, pela segunda metade do século XIX. Época em que subia ao trono e implantava um estilo marcante de governo, por mais de 60 anos, a rainha Alexandrina Vitória, mulher extremamente austera e obstinada que conduziria a Inglaterra a inúmeras conquistas e ao patamar de grande metrópole.
E o texto, que em princípio surgira com o intuito de agradar à pequena amiga, acabou por tornar-se um dos maiores clássicos da literatura infantil e a obra-prima de Carroll. A quem, hoje, alguns acusam de pedófilo por fotografar meninas seminuas, entre elas, Alice. Postura, no mínimo, ousada para uma Inglaterra de princípios morais extremamente rígidos. Mas isto é outra história. O que nos importa a biografia do autor, quando nos deparamos com um objeto singular em sua construção estética?
Embora este livro tenha entrado para a história da literatura como uma obra infantil, não se pode deixar de ver nele uma profunda crítica à sociedade inglesa e às suas estruturas. Carroll cria um mundo fantasioso e fantástico, em que se encontra a desconexa peregrinação da menina em busca de algum sentido para aquele universo, em que inexiste espaço para a razão. Imersa num mundo insólito, vítima da própria curiosidade, Alice tenta racionalizar, procura compreender as razões que organizam aquele ambiente confuso. Razão que parece ser a desrazão, a própria falta de limites racionais. Como encontrar outra resposta? Não estaria o autor querendo, exatamente, problematizar a questão, relativizando as fronteiras que separam real e sonho? Alice está perdida, longe de casa, da família, da gata Dinah. E longe de seu mundo organizado pela mão-de-ferro do estado, a pequena vaga meio tonta, sem saber direito para onde ir, mas percebendo que a única coisa que lhe resta é caminhar. Sempre.
Nessa verdadeira via-sacra é que ela encontra os seres mais grotescos, desde a Duquesa que nina um bebê-porco até a Rainha, cuja ânsia por ver-se respeitada e não contestada, faz com que repita incontinenti a mesma ladainha: — “Cortem-lhe a cabeça!”. Não podemos esquecer de referir a crítica à instituição escolar, presente na conversa com o Grifo e com a Falsa Tartaruga, ou a figura atarracada do Rei. Um ditador até certo ponto patético, que busca a execução de uma sentença a qualquer custo. A cena do tribunal, no final da narrativa, aponta também para o absurdo. Um verdadeiro pandemônio se arma, um leque de situações inverossímeis passa ante os olhos pasmados da menina que procura, a todo custo, organizar aquela loucura. E ali, no julgamento, encontram-se todas as criaturas que cruzaram por Alice durante seu périplo. Todos que interagiram com ela agem como se desconhecessem sua presença; mascaram-se a fim de se protegerem da fúria vingativa dos monarcas. Família, corte, escola e justiça revelam-se, na leitura de Lewis Carroll, como instrumentos não meramente coercitivos, mas, sobretudo, inverossímeis, ilógicos.
Em sua visita ao País das Maravilhas, a pequena Alice abre os olhos para o fantástico. Assim, real e fantasia se confundem. Sua aparente pureza inicial está agora maculada pela percepção da falta de racionalidade das estruturas mantenedoras do mundo regrado em que ela se vê inserida ao acordar do sonho. E fica a dúvida: sonho ou pesadelo? Sonho ou apenas reflexo invertido da realidade?
Alice tenta racionalizar, porém está imersa num mundo regido por outras razões. Um lugar mágico (ou louco) em que as falas e os atos mais simplórios são recobertos por uma aura de importância sem par, importância que parece querer justificar a incoerência das situações fantásticas. Sem resultado, já que os diálogos soam estéreis, ficando muitas vezes inconclusos, ou por iniciativa da menina, que foge, ou dos habitantes do mundo onírico, que — e isso é uma constante — desaparecem ou se negam ao discurso.
Ora, se pertencemos à sociedade enquanto portadores de linguagem, o discurso é condição de manutenção da vida, à medida que construímos o mundo através da fala. Assim, os diálogos sem sentido que Alice mantém com os estranhos seres que cruzam seu caminho são reflexos daquele desconhecido e bizarro mundo.
Muito se fala, pouco se compreende. A linguagem que deveria ser a ponte que ligaria Alice ao mundo sonhado é sempre fonte de incompreensão, isolando-a cada vez mais. Fazendo com que ela busque adaptar-se, apesar de suas tentativas sempre resultarem inúteis. Alice não entende aquela incoerência, aquela confusão. Vem de um mundo aparentemente regrado, em que é nutrida pela família, onde há espaço para cenas amorosas, quer no ato de ouvir sua irmã contando-lhe histórias, quer no carinho e dedicação à sua gatinha. Entretanto, procura ajeitar-se à ilogicidade do mundo das maravilhas, num encolhe-estica que reflete a inutilidade de suas tentativas e, ao mesmo tempo, a sua desestruturação interna. Crise existencial? Tudo indica que sim. Afinal, não é à toa que a pequena se questiona, a todo momento: — “Pois eu não sou eu mesma, como a senhora pode ver (...) eu mesma não consigo entender o que se passa”.
Alice é posta em xeque e, pode-se ver, em seu mergulho, um ritual de passagem. Menina, ela tem de deparar-se com o mundo adulto, a fim de assumir seus valores. Porém, para Alice, este mundo adulto surge como grotesco, como alheio às suas expectativas, incompreensível. Daí, a condição de exilada em que se vê e o desejo de sentir-se novamente segura no seu tranqüilo universo infantil.
Alice no País das Maravilhas, nesta perspectiva, é um livro que busca desvendar as incoerências do mundo adulto, numa construção ficcional que remete à estrutura multifacetada de um espelho caleidoscópico, que será retrabalhada de forma menos implícita, em Alice através do espelho, o novo mergulho da mesma personagem no universo onírico.
Em sua visita ao País das Maravilhas, a pequena Alice abre os olhos para o fantástico. Assim, real e fantasia se confundem. Sua aparente pureza inicial está agora maculada pela percepção da falta de racionalidade das estruturas mantenedoras do mundo regrado em que ela se vê inserida ao acordar do sonho. E fica a dúvida: sonho ou pesadelo? Sonho ou apenas reflexo invertido da realidade?
Alice tenta racionalizar, porém está imersa num mundo regido por outras razões. Um lugar mágico (ou louco) em que as falas e os atos mais simplórios são recobertos por uma aura de importância sem par, importância que parece querer justificar a incoerência das situações fantásticas. Sem resultado, já que os diálogos soam estéreis, ficando muitas vezes inconclusos, ou por iniciativa da menina, que foge, ou dos habitantes do mundo onírico, que — e isso é uma constante — desaparecem ou se negam ao discurso.
Ora, se pertencemos à sociedade enquanto portadores de linguagem, o discurso é condição de manutenção da vida, à medida que construímos o mundo através da fala. Assim, os diálogos sem sentido que Alice mantém com os estranhos seres que cruzam seu caminho são reflexos daquele desconhecido e bizarro mundo.
Muito se fala, pouco se compreende. A linguagem que deveria ser a ponte que ligaria Alice ao mundo sonhado é sempre fonte de incompreensão, isolando-a cada vez mais. Fazendo com que ela busque adaptar-se, apesar de suas tentativas sempre resultarem inúteis. Alice não entende aquela incoerência, aquela confusão. Vem de um mundo aparentemente regrado, em que é nutrida pela família, onde há espaço para cenas amorosas, quer no ato de ouvir sua irmã contando-lhe histórias, quer no carinho e dedicação à sua gatinha. Entretanto, procura ajeitar-se à ilogicidade do mundo das maravilhas, num encolhe-estica que reflete a inutilidade de suas tentativas e, ao mesmo tempo, a sua desestruturação interna. Crise existencial? Tudo indica que sim. Afinal, não é à toa que a pequena se questiona, a todo momento: — “Pois eu não sou eu mesma, como a senhora pode ver (...) eu mesma não consigo entender o que se passa”.
Alice é posta em xeque e, pode-se ver, em seu mergulho, um ritual de passagem. Menina, ela tem de deparar-se com o mundo adulto, a fim de assumir seus valores. Porém, para Alice, este mundo adulto surge como grotesco, como alheio às suas expectativas, incompreensível. Daí, a condição de exilada em que se vê e o desejo de sentir-se novamente segura no seu tranqüilo universo infantil.
Alice no País das Maravilhas, nesta perspectiva, é um livro que busca desvendar as incoerências do mundo adulto, numa construção ficcional que remete à estrutura multifacetada de um espelho caleidoscópico, que será retrabalhada de forma menos implícita, em Alice através do espelho, o novo mergulho da mesma personagem no universo onírico.
domingo, 2 de agosto de 2009
Eu no Tigre Albino
O site Tigre Albino (http://www.tigrealbino.com.br/), editado por Regina Zilberman, Maria da Glória Bordini e Sérgio Caparelli, publicou artigo meu, em que busco discutir o que é, afinal de contas, a poesia. Meu artigo chama-se Sabiá com trevas: três diálogos sobre a poesia moderna. Nele, dou voz a alguns poetas mortos e a outros vivos e os faço — através de comentários ficcionais e de seus próprios poemas, recorrendo, algumas vezes, à crítica — discutirem sobre o poetar. Eu, que de poesia pouco sei e pouco me aventuro em suas teias, busquei retomar a estrutura clássica dos diálogos, utilizada por Platão e por Cícero, pois julguei que seria a mais adequada para se falar sobre poesia. Um texto que fosse pulsante, como a própria poesia se pretende ser.
A introdução:
A poesia infantil só pode ser medida pela destinada aos adultos, com a reserva das características etárias. Caio Riter, em Sabiá com Trevas: Três Diálogos Sobre a Poesia Moderna, proporciona aos interessados em poesia para crianças um interessante confronto de idéias e posições dos maiores poetas brasileiros sobre seu ofício e sobre a poeticidade. Simulando uma entrevista com Drummond, Bandeira, João Cabral, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Mario Faustino, Ferreira Gullar e Manoel de Barros, com citações diretas e incluindo comentários de seus críticos, seu texto apresenta linhas-mestras também para o juízo sobre o valor do poema dirigido ao público infantil. Riter é escritor, Doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS e professor da FAPA.
Para ler os diálogos na íntegra, acesse: http://www.tigrealbino.com.br/texto.php?idtitulo=b011ca96013c5b236955d2c52f084337&&idvolume=27de74a255dc6167e97ea35762ae4f17
A introdução:
A poesia infantil só pode ser medida pela destinada aos adultos, com a reserva das características etárias. Caio Riter, em Sabiá com Trevas: Três Diálogos Sobre a Poesia Moderna, proporciona aos interessados em poesia para crianças um interessante confronto de idéias e posições dos maiores poetas brasileiros sobre seu ofício e sobre a poeticidade. Simulando uma entrevista com Drummond, Bandeira, João Cabral, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Mario Faustino, Ferreira Gullar e Manoel de Barros, com citações diretas e incluindo comentários de seus críticos, seu texto apresenta linhas-mestras também para o juízo sobre o valor do poema dirigido ao público infantil. Riter é escritor, Doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS e professor da FAPA.
Para ler os diálogos na íntegra, acesse: http://www.tigrealbino.com.br/texto.php?idtitulo=b011ca96013c5b236955d2c52f084337&&idvolume=27de74a255dc6167e97ea35762ae4f17
Outras palavras 15: Cristovão Tezza
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