domingo, 9 de março de 2014

Gente Nova 20: Davi Kinski

Davi Kinski é ator, escritor e apaixonado por arte. Já fez teatro, dirigiu cinema e lançou, aos 25 anos de idade, seu primeiro livro de poesia, "Corpo Partido", Editora Patuá.



(Femme aux Bras Croisés, de Picasso)


Não deixe vazar

O desejo
Pela fresta do tempo
Acariciando o vento
Para amanhecer
Em paisagem
Azul e íntima 
Desses teus
Segredos
Submersos
Avessos
Versos
Sem o teu
Pretexto 
Que palpita
Na ilha
Dos meus 
Pensamentos .

segunda-feira, 3 de março de 2014

Algumas dores


            Primeira dor
Nos dois últimos dias, vi dois filmes que concorreram ao Oscar: “Philomena” e “12 anos de escravidão”. E o que doeu, o que abriu buraco no dentro de mim, é saber que tudo aquilo aconteceu. Em ambos, a crueldade que humanos são capazes de impetrarem contra seus semelhantes;  em ambos, os algozes justificavam suas ações em crenças inabaláveis. Uma mulher e um homem, uma branca e um negro, os dois vítimas de um sistema que oprime em nome de uma verdade discriminatória, segregadora.

Segunda dor
Dor outra, maior quem sabe, foi perceber que o discurso do dominador foi assumido pelas vítimas, como se toda a desgraça que se abateu sobre elas fosse natural. Até quando o oprimido fará isso? Até quando aquele que padece de uma realidade cruel acreditará na própria culpa do mal, julgando que tudo ocorre como deve ocorrer? Acuados pelo medo, temerosos da mudança, a ação sendo inibida pelo receio de uma verdade mais sofrida ainda. Assim, calam, assumem o verbo do outro, do dominador.

Terceira dor
Esta vivida, sobretudo ao assistir “12 anos de escravidão”. Na plateia do GNC Moinhos, um nada de negros; nos rostos dos que saíam, em sua maioria, uma expressão despreocupada, um ou outro riso, como se não tivessem sido tocados pela dor pungente expressa na tela grande, tudo talvez não passando apenas de um espetáculo cinematográfico. Como não se deixar tocar, como sair incólume, como ter palavra leve, quando fomos premiados com a possibilidade de repensar a vida passada, a fim de que situações como as retratadas nos filmes jamais ocorram novamente? Pergunta que ainda reverbera em mim.

E pensar que depois de assistir a esse filme, depois de aprender nos bancos escolares o que foi a escravidão, há gente que segue acreditando que o sistema de cotas raciais é injusto. Ora, por favor.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Palavras 39


PALAVRA - É a palavra que estabelece ponte, que desmascara, que estabelece as fronteiras do meu mundo. Com ela, me abasteço; dela, me alimento. Uso-a como esteio, como voz, como raiz. Por vezes, como necessária arma. Sem ela, pouco sou: ganha-pão, essência, porta-voz das minhas verdades. A palavra é o que me faz, o que me constrói como ser.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Fábulas facebookianas ( o retorno).


Os ratos e o queijo

Pois no pátio da casa, o Cão era o líder: tudo organizava, tudo dava conta. Todos os animais o auxiliavam a governar. Os ratos o aplaudiam, o referendavam, pois sempre tinham seu naco de queijo. 
Até que o Gato chegou por ali e começou a desejar o poder. Para tal, chamou os ratos e lhes ofereceu mais queijo do que o necessário. "Mais queijo sempre é bom", disse-lhes o Gato. Então, os ratos que até então viviam ao lado do Cão, passaram a hostilizá-lo, acusando-o das coisas mais vis. Todavia, apesar dos estratagemas, dos ardis,  das intrigas e das falcatruas, o Gato não conseguiu o poder. 
E nem bem a noite chegou, lá estavam os ratos bajulando o Cão, elogiando seu jeito de governar o pátio, afinal não queriam ficar sem queijo.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Legenda fotográfica II


O verde se arvora céu, mas também o é, mesmo que não saiba. E o céu todo cinza, é cinza e é céu, é cinza e é seu.

Livros e McDonalds: temperar a imaginação

PublishNews - 23/01/2014 - Leonardo Neto 

McDonalds vai distribuir 10 milhões de livros na América Latina em 2014 

O McDonalds quer se transformar, em 2014, na maior rede de livrarias do Brasil. Isso mesmo. Você não leu errado... Em fevereiro, a rede de fast foods vai dar livros infantis na compra do McLanche Feliz. A campanha, que acontece em toda a América Latina, promete distribuir 10 milhões de exemplares em 2014. De acordo com Hélio Muniz, diretor de comunicação para o Brasil, 50% disso ficará nas mais de 700 lojas do McDonalds espalhadas em 159 municípios de todos os estados da federação. “Estamos muito felizes em usar a nossa grande capilaridade para estimular o hábito de leitura entre as famílias”, comemora o diretor.

A edição ficou por conta da Planeta. “Procuramos uma editora que tivesse a capacidade de chegar em diversos países da América Latina e, nesse sentido, a Planeta foi a parceira mais adequada”, comentou Muniz.

A campanha será feita em dois rounds. O primeiro, marcado para começar em 25 de fevereiro, vai distribuir seis títulos de autores nacionais. Encabeçando o time, Ana Maria Machado, com o inédito De noite no bosque, que conta uma história que mistura vários clássicos infantis contados por dois irmãos. Dois poemas (A Casa e O Pato) de Vinícius de Morais musicados pelo Poetinha e por Toquinho no álbum Arca de Noé estão em outro título da coleção. Caio Ritter (com Menino qualquer), Lalau (Você pergunta, a poesia responde), Márcio Vassallo (A voz da minha mãe), Leticia Wierzchowski e Marcelo Pires (O farol e o vaga-lume) completam a coleção.

Essa não é a primeira vez que o McDonalds dá livros a seus clientes. Em novembro de 2013, a uma campanha distribuiu livros nas áreas de ciências e física, mas que, de acordo com Isabela Almeida, gerente de marketing da empresa no Brasil, não teve o alcance que terá agora. “Essa é a primeira vez que fazemos essa campanha de livros exclusivamente com autores brasileiros. A gente entendeu que era hora de trazer uma nova edição com livros mais lúdicos, escritos por escritores que já têm a linguagem do universo infantil”, comentou Isabela. Além do texto, os exemplares trazem atividades e uma cartela de stickers que permite que os leitores recontem as histórias lidas no livro. Em novembro, será feita uma nova campanha.

Em nível mundial, essa onda de dar livros na compra de lanches do McDonalds começou na Europa, há dois anos. A ideia é que se torne uma campanha sazonal, mas permanente no Brasil. No período da campanha, o McDonalds estuda levar contadores de histórias e autores para sessões de autógrafos nas suas lojas. “Se a gente fizer que uma criança saia das nossas lojas com um livro e compartilhe com um amiguinho, teremos a nossa missão cumprida”, comentou Daniel Arantes, diretor de planejamento de marketing para América Latina da companhia. “Dizem que poesia não enche barriga, mas enche a alma... Nossos clientes vão poder sair dos nossos restaurantes com a barriga e alma cheias agora”, finalizou Arantes.

É política do McDonalds vender os brindes do McLanche Feliz, independente da compra do kit. Pais e crianças que quiserem adquirir um exemplar terão que desembolsar R$ 9,50.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Barbárie

Um jovem foi assassinado barbaramente.
Era pobre, era negro, era gay.
Era, com certeza, cheio de planos. Talvez visse o futuro, como a grande maioria dos jovens vê: como algo promissor. Talvez sonhasse com um mundo mais humano. Talvez fosse idealista (jovens são idealistas). Talvez acreditasse em uma sociedade fraterna, mesmo vendo diariamente nas ruas ou na mídia exemplos de egoísmo.
E este jovem foi barbaramente assassinado.
Talvez por ser pobre, talvez por ser negro, talvez por ser gay.
Na hora da morte, talvez tenha visto seus sonhos despedaçados, talvez tenha chorado, gritado, tentado alguma reação, algum pedido de socorro, que não foi ouvido. Nas casas, todos dormiam o tranquilo sono dos justos. Na rua, um jovem brasileiro tinha os dentes arrancados, tinha o corpo torturado, tinha a vida assassinada.
E, cada vez que um crime brutal destes ocorre, sinto que nos amordaçamos, sinto que a sociedade cala, mais preocupados que estamos em nos proteger atrás de nossas cercas elétricas. Porém, outros jovens estão sonhando. Brancos, negros, índios, gays ou héteros, pobres ou ricos, eles trazem em si a alma repleta de sonhos. Sonhos que não podem ser destruídos em nome de uma moral excludente, violenta, suja.
Quero (ah, como quero) saber que minhas filhas poderão andar pelas ruas livres de qualquer perigo, independente das escolhas que façam ou daquilo que são. Quero uma sociedade que não cale diante da barbárie. Quero que a juventude possa sempre crer na possibilidade de renovação.
Quero que jovens não mais sejam barbaramente assassinados.

Quero o óbvio. Quero o clichê, por mais clichê que possa ser desejar respeito, liberdade, paz.