CRIANÇA - Uma pergunta de criança não conhece subterfúgios. É seta certeira no coração. Nada de máscaras. A palavra plena, lúcida, em toda sua verdade de interrogação.
O fazedor de velhos, do Rodrigo Lacerda, prêmio Jabuti de melhor livro juvenil de 2009, apresenta a história de Pedro: um cara meio perdido diante da vida e da necessidade de fazer opções. Livro que encanta pela intertextualidade e pelas reflexões que apresenta em relação à leitura. Coisa em que eu acredito aparecem verbalizadas nas ações de Pedro: literatura meio como salvação, como possibilidade de encontro, de descobertas, de experiências outras além daquelas que a vida permite viver. É através das palavras literárias e daquilo que seu mestre lhe impõe como condição para descobrir-se, que Pedro vai "envelhecendo" e se percebendo como gente. Texto de formação, texto que articula literatura e vida de forma bem feita e que não faz concessões àquilo que se convencionou chamar de literatura para jovens: leitura-divertimento-passatempo. Não, O fazedor de velhos, com certeza, é página a propiciar amadurecimentos.
Pois é, uma iniciativa que surgiu como protesto, como possibilidade de chamar a atenção para a literatura feita para crianças e adolescentes atinge seu 33º encontro. Conversas, discussões, troca de ideias, sempre em torno de um livro, a princípio criado para o público infanto-juvenil, faz da REINAÇÕES um proposta que vem dando certo. E isso graças aos incansáveis e animados confrades que, desde o primeiro encontro, não medem esforços para, haja frio, chuva ou calor, se reunirem para um bate-papo (umas vezes mais acalorado; outras menos) sobre a arte de contar uma boa história, sobre Literatura. Em 2009, estendemos nossas atividades para a cidade de Caxias, que este mês realiza su 7º encontro, realizamos seminário enfocando a leitura dos clássicos Por que ler os clássicos, como uma das tantas atividades da Feira do Livro de Porto Alegre. Fizemos dois saraus (um em homenagem ao dia do livro e outro ao dia das crianças), realizamos 12 encontros, participamos das atividades da FESTPOA, com mesa sobre poesia e letra de música. Enfim, estamos, como queríamos, reinando. Sempre. E cada vez mais.
2010 me acena com algumas publicações. Esse ano, o Governo antecipou datas para a inscrição de textos no PNBE, o que provocou nas editoras uma corrida contra o relógio, a fim de respeitar prazos para entrega de livros. Ora, para nós, escritores, a corrida acabou acumulando a publicação de alguns títulos. Assim, em janeiro alguns livros novos deverão estar desabrochando e quando o ano iniciar de fato, ou seja, quando março chegar, com ele, creio, virão algumas novidades: um livro para professores, em que relato algumas experiências de leitura, quer como leitor, quer como provocador de leitores (já falei dele aqui): A formação do leitor literário em casa e na escola; um livro em que enveredo pelo universo da fantasia, algo no há muito desejado, mas que foi maior trabalho no ajuste de algo que, embora tivesse todos os elementos do gênero, mas não caísse no clichê: As luas de Vindor. Há ainda projeto antigo: recontar (ou contar, visto que ainda não existe (pelo menos que eu conheça) uma versão definitiva da mais jovem lenda de Porto Alegre, a da Maria Francelina: Maria Degolada, santa assombrada. Outros projetos são o livro juvenil, O outro passo da dança, com ilustrações do Joãocaré: um livro e três histórias, além de um texto mais infanto-juvenil: Conversas de Cachorro, em que busco conversar com um dos livros que mais me inquietou e provocou nestes últimos tempos: Peter Pan, do James Barrie.
FIM: todo o fim pressupõe um recomeço, um novo desejo de ser, como se, ao nos atirarmos num voo cego em abismo, desconhecêssemos o que lá embaixo nos espera. Engano, tudo é sempre, e apenas, esperança. Ela, sim, se destruída, certeza do fim.
Recebo manifesto Por um Brasil Literário, de Bartolomeu Campos de Queirós:
Caio, hoje, me vi pensando como seria viver em um país de leitores literários. Pode ser apenas um sonho, mas estaríamos em um lugar em que a tolerância seria melhor exercida. Praticar a tolerância é abrigar, com respeito, as divergências, atitude só viável quando estamos em liberdade. Desconfio que, com tolerância, conviver com as diferenças torna-se em encantamento. A escrita literária se configura quando o escritor rompe com o cotidiano da linguagem e deixa vir à tona toda sua diferença – e sem preconceitos. São antigas as questões que nos afligem: é o medo da morte, do abandono, da perda, do desencontro, da solidão, desejo de amar e ser amado. E, nas pausas estabelecidas entre essas nossas faltas, carregamos grande vocação para a felicidade. O texto literário não nasce desacompanhado destes incômodos que suportamos vida afora. Mas temos o desejo de tratá-los com a elegância que a dignidade da consciência nos confere.A leitura literária, a mim me parece, promove em nós um desejo delicado de ver democratizada a razão. Passamos a escutar e compreender que o singular de cada um – homens e mulheres – é que determina sua forma de relação. Todo sujeito guarda bem dentro de si um outro mundo possível. Pela leitura literária esse anseio ganha corpo. É com esse universo secreto que a palavra literária quer travar a sua conversa. O texto literário nos chega sempre vestido de novas vestes para inaugurar este diálogo, e, ainda que sobre truncadas escolhas, também com muitas aberturas para diversas reflexões. E tudo a literatura realiza, de maneira intransferível, e segundo a experiência pessoal de cada leitor. Isto se faz claro quando diante de um texto nos confidenciamos: "ele falou antes de mim", ou "ele adivinhou o que eu queria dizer".Caio, o texto literário não ignora a metáfora. Reconhece sua força e possibilidade de acolher as diferenças. As metáforas tanto velam o que o autor tem a dizer como revelam os leitores diante de si mesmo. Duas faces tem, pois, a palavra literária e são elas que permitem ao leitor uma escolha. No texto literário autor e leitor se somam e uma terceira obra, que jamais será editada, se manifesta. A literatura, por dar a voz ao leitor, concorre para a sua autonomia. Outorga-lhe o direito de escolher o seu próprio destino. Por ser assim, Caio, a leitura literária cria uma relação de delicadeza entre homens e mulheres.Uma sociedade delicada luta pela igualdade dos direitos, repudia as injustiças, despreza os privilégios, rejeita a corrupção, confirma a liberdade como um direito que nascemos com ele. Para tanto, a literatura propõe novos discernimentos, opções mais críticas, alternativas criativas e confia no nosso poder de reinvenção. Pela leitura conferimos que a criatividade é inerente a todos nós. Pela leitura literária nos descobrimos capazes também de sonhar com outras realidades. Daí, compreender, com lucidez, que a metáfora, tão recorrente nos textos literários, é também uma figura política.Quando pensamos, Caio, em um Brasil Literário é por reconhecer o poder da literatura e sua função sensibilizadora e alteradora. Mas é preciso tomar cuidados. Numa sociedade consumista e sedutora, muitos são leitores para consumo externo. Leem para garantir o poder, fazem da leitura um objeto de sedução. É preciso pensar o Brasil Literário com aquele leitor capaz de abrir-se para que a palavra literária se torne encarnada e que passe primeiro pelo consumo interno para, só depois, tornar-se ação. Caio, o Brasil Literário pode, em princípio, parecer uma utopia, mas por que não buscar realizá-la? Com meu abraço, sempre, Bartolomeu