terça-feira, 22 de abril de 2014

Muito do que.

           Muito do que me cerca não dá conta da forma como percebo o mundo, as pessoas, as coisas. Muito do que me rodeia, por vezes, parece me conceder uma aura de desajuste. Não no sentido marginal da palavra, pensada numa perspectiva social. Não. É mais, acho. A coisa é sentida no nível das ideias, na percepção do ser e do estar no mundo. Isso deve ser bom. Deveria, pelo menos. Afinal, muitos defendem a diversidade, a alteridade. Ela como caminho para o encontro com o outro. Acredito em tudo isso: na alteridade, na diversidade, na diferença que cada ser traz em si. Porém, acho que o que penso vai além disso: quer falar de um sentimento de estar no mundo, de concepção do mundo, de estabelecimento da relação com o altero.
           Por vezes, olho para a vida e vejo tão poucas pessoas irmanadas ao meu sentir.
       E, confesso, isso acaba por me trazer uma certa sensação de que algo está fora da ordem. Pelo menos, da minha ordem.
          Uma madrasta assassina seu enteado e isso assombra a sociedade, mas não elimina a possibilidade de que outros Bernardos morram, assim como ocorreu com a menina Nardoni. No caso gaúcho, a sociedade foi conivente: permitiu que o garoto ficasse sob os cuidados do pai, que não selava por ele, em detrimento do apelo da avó; permitiu que ele ficasse fora de casa, sem permissão de entrada, até que o pai aparecesse; permitiu que, mesmo o menino reclamando dos maus tratos, seguisse sendo maltratado. Até que.
            Um torcedor atira uma banana contra um jogador negro, este, a fim de menosprezar o ato, come a banana. Então, alguns veem seu ato como aceitação da pecha de macaco. Como se rir do preconceito (ou minimizá-lo) fosse saída para o fim da discriminação, para o término de atitudes homofóbicas, discriminatória, genofóbicas. A atitude do jogador sendo aproveitada pela mídia, com camisetas cujo slogan "somostodosmacacos" passa a ser slogam anti-racista. Como assim?
             E a sensação de ser turista num mundo não meu lateja no peito.

domingo, 13 de abril de 2014

A catedral de Joinville


Um passeio pelas ruas de Joinville, em intervalo da feira literária, encontro a Catedral: ampla, silenciosa, com um teto em formato de concha. Momento de oração.

domingo, 23 de março de 2014

Palavras 40


SOLIDÃO - Nos olhos que olham para dentro de si, a presença ausente de quem um dia aqui esteve. Nem sempre o vazio representa estar só. Somos habitados por todos os que deixaram suas marcas em nós. 

domingo, 9 de março de 2014

Gente Nova 20: Davi Kinski

Davi Kinski é ator, escritor e apaixonado por arte. Já fez teatro, dirigiu cinema e lançou, aos 25 anos de idade, seu primeiro livro de poesia, "Corpo Partido", Editora Patuá.



(Femme aux Bras Croisés, de Picasso)


Não deixe vazar

O desejo
Pela fresta do tempo
Acariciando o vento
Para amanhecer
Em paisagem
Azul e íntima 
Desses teus
Segredos
Submersos
Avessos
Versos
Sem o teu
Pretexto 
Que palpita
Na ilha
Dos meus 
Pensamentos .

segunda-feira, 3 de março de 2014

Algumas dores


            Primeira dor
Nos dois últimos dias, vi dois filmes que concorreram ao Oscar: “Philomena” e “12 anos de escravidão”. E o que doeu, o que abriu buraco no dentro de mim, é saber que tudo aquilo aconteceu. Em ambos, a crueldade que humanos são capazes de impetrarem contra seus semelhantes;  em ambos, os algozes justificavam suas ações em crenças inabaláveis. Uma mulher e um homem, uma branca e um negro, os dois vítimas de um sistema que oprime em nome de uma verdade discriminatória, segregadora.

Segunda dor
Dor outra, maior quem sabe, foi perceber que o discurso do dominador foi assumido pelas vítimas, como se toda a desgraça que se abateu sobre elas fosse natural. Até quando o oprimido fará isso? Até quando aquele que padece de uma realidade cruel acreditará na própria culpa do mal, julgando que tudo ocorre como deve ocorrer? Acuados pelo medo, temerosos da mudança, a ação sendo inibida pelo receio de uma verdade mais sofrida ainda. Assim, calam, assumem o verbo do outro, do dominador.

Terceira dor
Esta vivida, sobretudo ao assistir “12 anos de escravidão”. Na plateia do GNC Moinhos, um nada de negros; nos rostos dos que saíam, em sua maioria, uma expressão despreocupada, um ou outro riso, como se não tivessem sido tocados pela dor pungente expressa na tela grande, tudo talvez não passando apenas de um espetáculo cinematográfico. Como não se deixar tocar, como sair incólume, como ter palavra leve, quando fomos premiados com a possibilidade de repensar a vida passada, a fim de que situações como as retratadas nos filmes jamais ocorram novamente? Pergunta que ainda reverbera em mim.

E pensar que depois de assistir a esse filme, depois de aprender nos bancos escolares o que foi a escravidão, há gente que segue acreditando que o sistema de cotas raciais é injusto. Ora, por favor.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Palavras 39


PALAVRA - É a palavra que estabelece ponte, que desmascara, que estabelece as fronteiras do meu mundo. Com ela, me abasteço; dela, me alimento. Uso-a como esteio, como voz, como raiz. Por vezes, como necessária arma. Sem ela, pouco sou: ganha-pão, essência, porta-voz das minhas verdades. A palavra é o que me faz, o que me constrói como ser.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Fábulas facebookianas ( o retorno).


Os ratos e o queijo

Pois no pátio da casa, o Cão era o líder: tudo organizava, tudo dava conta. Todos os animais o auxiliavam a governar. Os ratos o aplaudiam, o referendavam, pois sempre tinham seu naco de queijo. 
Até que o Gato chegou por ali e começou a desejar o poder. Para tal, chamou os ratos e lhes ofereceu mais queijo do que o necessário. "Mais queijo sempre é bom", disse-lhes o Gato. Então, os ratos que até então viviam ao lado do Cão, passaram a hostilizá-lo, acusando-o das coisas mais vis. Todavia, apesar dos estratagemas, dos ardis,  das intrigas e das falcatruas, o Gato não conseguiu o poder. 
E nem bem a noite chegou, lá estavam os ratos bajulando o Cão, elogiando seu jeito de governar o pátio, afinal não queriam ficar sem queijo.