sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Direito à fantasia

 Um dia fui criança. Fui. E se falo assim, no passado, apesar de um pequeno ainda habitar meu coração, é porque a infância passa e o que fica dela é a nostalgia do ter sido. Ou do não ter sido também.
Fui criança não daquelas arteiras, levadas. Fui menino tranquilo, de não muitas peraltices, de trabalho pouco dando aos pais. Fui criança triste. Pelo menos, é o que diviso nas poucas fotos do guri que, por vezes, me olha de algum lugar do ontem.
Fui criança de imaginações. E se o fui, foi pelo pouco que a rua daquele bairro de periferia me ofertava. Eu queria algo mais. Um algo mais nutrido pelo tanto de leitura que invadia meus dias pouco diferenciados. Tudo muito igual, tudo sempre igual. Gibis, pulp fictions, fotonovelas e, depois, os livros foram me mostrando que a vida podia ser mais, bem mais. Foi me revelando que havia outros mundos possíveis, além da mesmice do meu, e que, se as condições minhas não permitiam vivenciá-los, as páginas dos livros possibilitavam que eu fosse árabe, africano, mulher, velho, cachorro, enfim o que quisesse ou pudesse. A fantasia e a imaginação me ensinando que o sonho é possível.
Fui criança de poucos amigos, fui criança de poucos dizeres, talvez mais assuntando a vida do que vivendo-a; talvez mais desejando o altero do que sendo-o.
Fui criança e, à realidade de parcos recursos, fui dando outros sentidos. Assim, um pedaço de pau podia ser o cavalo de Napoleão; uma caixa de fósforos vazia, a biga de Ben-Hur; um buraco cavado no meio do jardim, a toca do coelho que me conduziria ao País das Maravilhas. 
Fui sendo.
Por isso, por vezes, me surpreende que muitas crianças hoje só consigam ser crianças rodeadas de uma parafernália tecnológica que pouco lhes oferece de fantasia. Somos mais crianças à medida que somos capazes de imaginar, de criar do nada o todo.
Fui criança e sei que a realidade é outra, que o mundo é outro, que ser criança é outra coisa para muitos. Sei de tudo isso, mas sigo crendo (talvez de forma sonhadora demais) que a criança (não, a criança não, o ser humano) necessita da fantasia para ser mais e mais humano.

Kit BH para Duas Vezes na Floresta Escura

Meu novo livro "Duas Vezes na Floresta Escura", Editora Gaivota, faz parte dos livros selecionados pelo KIT BH, promovido pela Prefeitura de Belo Horizonte. Bom início. Livros à mão cheia, chegando ao coração-leitor de jovens mineiros. E o mais bacana ainda é que este livro ainda não chegou em minhas mãos. Ainda não foi toque, não foi descoberta, não foi surpresa boa de primeiro abrir de páginas, mas já está conquistando vitórias. Afinal, a maior delas é mesmo poder ser objeto disponível a olhos e a corações de mais e mais leitores. Sou feliz.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Sobre o papel das Feiras de Livros

             Feiras de livro são importantes. Muitos pensam assim. E verdades absolutas dificilmente são questionadas. Feiras de livro são importantes, sim, mas desde que, de fato, qualifiquem o leitor, aticem seu olhar para os livros. O que nem toda a Feira de livro faz.
           Em minhas andanças por feiras, percebo que o problema maior reside em se julgar que uma feira da leitura necessite de outros atrativos que não apenas e somente os livros, os escritores ou as atividades que giram em torno da leitura: uma peça de teatro, por exemplo, nascida de um livro ou que trate sobre o tema. Feiras de livro, por vezes, são espaço para a presença de brinquedos infláveis, para cinema 3D, para show de alguma banda famosa (ou nem tanto), para a presença de algum cantor ou ator global. Tudo sempre com o intuito (louvável, mas questionável) de se trazer mais público à praça ou ao ginásio. Entretanto, para que mesmo quer-se mais público que não consuma livros, se a feira é para ofertar livros? Faça-se, então, uma feira cultural, aberta à pluralidade. Aí, se chama todo mundo para a praça e se pode propagandear para a população o feito.
             Muitas vezes, nestes eventos, a discussão literária se torna muito mais atraente para quem discute do que para quem assiste, ouve. Já fui a feiras (pasmem!) em que não havia livros meus à venda. E vários autores já se queixaram disso. Alguns livreiros aproveitam a ocasião para venderem seus estoques, para venderem os mais recentes best-sellers, sem se preocuparem se aqueles autores que visitarão a feira verão seus livros expostos e se os leitores que queiram adquirir o livro e pegar o autógrafo terão êxito. Normalmente, não.
            Claro que sigo crendo que feiras são bons momentos para a formação de leitores e também dos leitores. Sigo acreditando na importância de formarmos plateia qualificada, público consumidor de literatura, embora não creia que a feira pela feira possa propiciar isso. É necessário mais: é preciso um projeto de leitura, quer em nível escolar, quer em nível municipal. Apenas levar hordas de crianças e de jovens à praça não os torna leitores. Por vezes, eles nem sabem o que estão fazendo por lá: não vão às atividades a eles destinadas, pois não foram devidamente motivados para elas ou não veem nelas proveito, visto que nem sabem quem é aquele(a) cara que está falando lá na frente: não conhecem sua obra, seus livros, suas palavras literárias, já que não foram apresentados a elas anteriormente. A feira, creio, deveria ser a apoteose de um trabalho prévio com os livros dos escritores visitantes. Aí, sim, quando isso ocorre, de fato o encontro na feira torna-se significativo para o autor e para os seus leitores. Seus leitores, pois já tiveram o contato, mediado, com a obra daquele que encontrarão no palco da feira.
             Para muitos (inclusive para alguns professores, estes que assumiram para si o papel de mediar a leitura nas escolas), ir à feira é motivo para passear, para não ter aula; não foram educados, motivados, instigados a descobrirem o mundo que se esconde dentro das páginas de um livro: basta um toque, um folhear de páginas, olhos a decifrar universos, para que a mágica se instaure. Já visitei feiras das quais saí maravilhado pelo tanto de envolvimento de crianças, de jovens, de adultos com a leitura. Estavam ali por que queriam, era ato de vontade; estavam ali pois aderiam à necessidade de se viver literariamente; estavam ali prenhes de leitura, desejosos de mais encontro com os livros.
             Portanto, há feiras do livro que vão ao encontro do que, a meu ver, deve ser uma feira do livro. Mas poucas. Daí, a necessidade de pensarmos na qualificação dos mediadores de leitura, na oferta de livros interessantes, no aprimoramento do leitor, na crença de que livros lidos nos formam como gente, na certeza de que a formação de bibliotecas familiares são importantes. Aproximar as pessoas dos livros é importante, mas não apenas jogá-las entre livros, acreditando que basta montarmos barraquinhas de livros em praça pública para que a comunidade se torne leitora. Se fosse assim, nossa realidade de leitura, com certeza, seria outra. E melhor.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Fazer-me palavra.

Por vezes, teço neste espaço algumas confissões. Sei que o confessar-se tem seu tanto de revelação, de busca de entendimento, de tentativa de compreensão do outro e, claro, de nós mesmos. Vai se saber.
O fato é que me revelo ou me confesso.
Gosto (por vezes acho que até demais) de enveredar pelas páginas do Face. Escrevo o que penso, evito compartilhamentos (apenas os que me enchem da necessidade de), porque acredito que na minha página deva postar comentários meus sobre o viver, sobre o ser, enfim, são apenas minhas percepções. Sei que outras existem, muitas, e tantas diversas das minhas. Algumas dialogantes; outras amparadas em bases tão distintas que a conversa não tem como existir. Cada um agarrado às suas verdades; alguns tão cegos por elas que usam as palavras de forma violenta, virulenta.
As redes sociais - e neste sentido creio que o Face tem se mostrado mais revelador que o falecido Orkut - são espelhos de quem posta, compartilha, curte. E, confesso, alguns posicionamentos me assustam. Não apenas por serem contraditórios a tudo em que eu acredito. Mas, sobretudo, por serem cegos para o outro, para a realidade do outro, para a necessidade do outro, para a alteridade do outro.
E o que me resta, senão apenas confessar tal preocupação? 
Fazer-me palavra, mesmo que me hostilizem, ou me bloqueiem, ou.

sábado, 28 de junho de 2014

Dois retratos de Caio

Há muito tempo eu não era brindado com novos retratos. Pois, na quinta-feira, visitando a Escola Major Miguel Pereiro, dentro do Projeto Autor Presente, coordenado pelo IEL, fui surpreendido com muitos retratos. Abaixo, dois deles: um do Fernando e outro do Pedro Augusto.



quarta-feira, 25 de junho de 2014

Oficinas e escrita

Sou escritor oriundo de oficina literária, mas não creio que uma oficina forme um autor. Assim, se digo isso é por ser fato, não exigência. 
Talvez, por ser oriundo de oficina e por, há mais de dez anos, ministrar oficina de narrativa curta (embora já tenha coordenado oficinas de crônica e de literatura infantil também), tenha criado minhas convicções sobre a prática da escrita. Elas vêm da experiência e do que estudei. E fuçando neste blog, no marcador "Sobre a escrita", fui me reencontrando com dizeres produzidos há bastante tempo. Neles, falo da fusão necessária entre forma e conteúdo. Fusão em que haja equilíbrio, não o excesso de um sobre o outro. Isso poderia provocar a morte de um texto. Um texto não lido é texto morto. E se eu alimentei uma certeza quando decidi ser escritor é de que não queria ficar restrito às cátedras universitárias, queria mais: queria que minhas palavras fossem ao encontro do leitor. 

sábado, 21 de junho de 2014

Torres Paulistas II

Mais andanças, mais torres.

Igreja José de Anchieta


Mosteiro de São Bento


Capela da PUC


Nossa Senhora do Ó


Igreja São Luiz Gonzaga