
Conheci o Tadeu Fiorentin através de um trabalho de Literatura que a escola dele, no município de Nova Bassano-RS, promoveu. A professora Marli sugeriu que seus alunos enviassem e-mails ao autor do livro que tinham lido: eu. Assim, meus primeiros contatos com o Tadeu foram virtuais: e-mails; depois, MSN. E, nas conversas com o adolescente de 14/15 anos (isso foi em 2005) que me falava de sua vida, partilhava seus sonhos, pedia conselhos, eu ia recuperando um tanto de meu tempo de adolescer. Nostalgia total. Experiência bacana em que as quase 3 décadas de distância não foram empecilho. Nossas conversas eram troca entre dois tempos que se encontravam, tendo como essência o gostar de livros. Pois num destes encontros no MSN, o Tadeu, meio indignado, me contou que sua professora de Português lhe dera como tarefa a confecção de um diário. Nele, deveria registrar seus afazeres, sua rotina, suas expectativas em relação à etapa que se encerrava. Eu tentei aconselhar meu amigo, dizendo-lhe que seria legal escrever um diário. "Imagina, cara, daqui a alguns anos, tu poderá saber o que pensava o Tadeu-adolescente". Não o convenci muito, mas eu, que já pensava em escrever a história de uma jovem cujos pais se separam e ela tem dificuldade em aceitar a nova situação, descobri naquela conversa que poderia estruturar meu novo livro em forma de diário. Através da escrita, a protagonista iria vencendo suas dificuldades. E descobri mais: que poderia, ao invés de criar um diário, organizar o livro em forma de dois: um diário de uma garota, um de um garoto. Com certeza, seriam preocupações distintas. Uma guria escreveria coisas diferentes de um guri. E mais: decidi que o guri seria o Tadeu. Quer dizer, não bem o Tadeu real, mas um Tadeu criado à imagem e semelhança do verdadeiro. Aí fui "dando corda" pro meu amigo, fui perguntando mais sobre sua vida, seus desejos e tal, inclusive "colando" frases literais digitadas por ele, frases espirituosas, repletas de verdades adolescentes, e que foram para o livro de forma literal. Assim, e como diferente não podia ser, meu personagem foi se tornando nosso. Mandava fragmentos do livro pro Tadeu e vibrava com a sua enorme vibração ao ver-se ficcionalizado, matéria-prima de meu novo livro, a sair em 2008, pela Biruta, num projeto gráfico bastante ousado, que espero dar o que falar.
Dia desses, o meu personagem veio me visitar em Porto Alegre. Dia bacana. Dia de encontro e de mais troca. Ambos ansiosos pra ter o Meu pai não mora mais aqui, de fato, entre as mãos. Experiência de criação singular para mim. (Na foto, nós dois.)
Fragmento de Meu pai não mora mais aqui:
"Na real, ela deve tá é querendo bisbilhotar a vida da gente. E o pior é que a minha mãe é amiga dela. Imagina se escrevo umas coisas pesadas e ela conta pra minha mãe? Tou frito. Também, fui arrumar uma professora amiga da minha mãe. Pode? Mas, nessa cidade, tem alguém que não se conheça? Ter até tem. Não conhecer de não se falar, mas de não conhecer de verdade não tem não. Na aula até tem umas gurias e uns guris com quem eu nunca falei, mas sei quem são eles. Sei sim.
Um diário. Pode?
O Cau disse que vai escrever um monte de bandalheira. Já pensou? Eu tô fora. Mas escrever o quê?
Querido diário, hoje acordei triste, tá louco."