terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A propósito da escrita e das oficinas literárias


Alguém já disse — e se não foi dito, deveria ter sido — que quem escreve cria mundos possíveis. Há um tanto de verdade nas invenções que aquele que urde universos ficcionais cria. Deparar-se com uma história, vertida em palavras no papel (ou em qualquer outro suporte) é sempre convite para mergulho num mundo outro, não nosso, mas também nosso.
Aquele que escreve gesta mundos.
E a dor do parto se dá no momento vário da gestação: nada nasce pronto no caso da literatura; tudo precisa de labor, de alimento que possa gerar uma criatura que nunca estará completamente acabada, afinal escrever pressupõe — além do trabalho do burilamento da palavra e das escolhas estruturais (Que narrador usar? Como estruturar os diálogos? Qual a perspectiva narrativa? Como intensificar o conflito? Qual a medida certa para configurar os personagens?) —, a interlocução com o leitor: é ele quem põe sentidos outros naquilo que se escreve; é ele quem nos ajuda a gestar aquele que foi parido.
Aquele que escreve parteja para os outros.
Escrever é também mergulho no âmago da palavra. Busca-se despertá-la, procura-se um tanto de novidade, para que, no arranjo e rearranjo do verbo, possa-se propiciar o nascimento de um outro mundo. Mundo outro, porém extremamente ligado a este. Este que está aí, na nossa frente, e que, muitas vezes, a literatura nos ajuda a ver.
Aquele que escreve estende olhares.
Há quem afiance que a escrita é prática solitária. Por vezes, sim. Mas nem sempre. Quem acredita no trabalho de uma oficina sabe que a troca e a orientação, visto que são possibilidades de leitura diferenciadas daquela de quem pariu o verbo, são auxiliares importantes na produção literária. A oficina, diria eu, oferece um primeiro leitor. Um leitor que pode suscitar qualificação para o texto recém-nascido.
            E por falar de oficinas, é muito comum seus detratores afiançarem que o que gesta um escritor é seu dom nato, é sua capacidade de inspiração, são os seus mergulhos em seus próprios sentimentos e volições. Discordo: o que torna alguém um escritor é a capacidade que este mesmo alguém tem de dar forma àquilo a que alguns chamam de inspiração. E, para urdir a arquitetura literária de um texto, precisa-se, sim, do conhecimento técnico. Este pode se dar de forma autodidata, através da capacidade leitora daquele que escreve, ou se formar a partir da troca, da aquisição do conhecimento através do exercício e da orientação de alguém que já tenha galgado caminhos semelhantes.
Oficinas literárias não formam escritores.
Todavia, elas se constituem espaços interessantes (e importantes) para a discussão do labor literário; são possibilidade para que o debate sobre a escrita possa produzir eco; são porta aberta para quem deseja forjar de forma mais eficiente o desejo pela palavra.
Oficinas literárias não formam escritores.
Porém, elas aguçam olhares, capacitam leituras, concedem ferramentas (e o domínio sobre estas ferramentas), a fim de capacitar aquele que pretende gestar histórias e poemas para que possa ser mais senhor de sua escrita.
Oficinas literárias não formam escritores.
Mas são elas que, de certa forma, capacitam o escritor e destroem determinados estereótipos ligados à escrita, que, a meu ver, são empecilhos para a profissionalização do escritor. A ausência de um olhar mais racional sobre o fazer literário (que as oficinas normalmente propõem) retira a aura de “iluminação” ainda muito arraigada na mente de alguns escritores. Aquela visão ingênua de que, se o texto surgiu assim, ele deve ficar assim; visão que apregoa a inspiração como matriz soberana e absoluta da autoria. Não se dão conta, estes, de que a autoria se constitui na capacidade (maior ou menor) de se trabalhar sobre a matriz da inspiração. Afinal, se queremos ser profissionais da palavra, devemos sempre buscar a troca, devemos caminhar ao encontro do aprimoramento, devemos não nos cansar diante da palavra que se recusa à forja. Afinal, como tantos já disseram e como Drummond sintetizou também, “a luta com as palavras é a luta mais vã, lutamos mal rompe a manhã.”
Oficinas não fazem de alguém um escritor, mas podem aprimorar aquele que possui a verve criativa para a escrita. Oficinas sugerem caminhos, apresentam estradas e atalhos, rotas e percursos. O autor é quem fará suas escolhas. Sempre.


sábado, 12 de outubro de 2013

Mais duas fabuletas: Sobre abelhas e sapos.



A Abelha-rainha e as operárias

           A Rainha das abelhas resolveu escolher suas operárias mais obreiras para participarem da comissão que representaria a colmeia na convenção dos animais e deixou que elas se lambuzassem no mel. 
                Enfim, cada espécie seria representada por seus espécimes mais diletos. 
             E foi assim: voando, foi-se a Rainha, seguida por suas fiéis súditas. Porém, no momento em que, na convenção, deram voz às operárias, eis que elas colocaram-se a falar sobre as agruras da colmeia, sobre o tanto de trabalho, sobre a rotina de apenas fazer mel e mel e mel. Todos os animais aplaudiram as operárias, gritaram palavras de apoio e comentaram como era bom não ser abelha. No final da convenção, retornaram Rainha e operárias para seus afazeres. 
Atrás de si, o cochicho sobre o horror de se viver numa colmeia.



Os sapos

               Num banhado, bem no meio da floresta, vivia um bando de sapos. Sapos verdes, enrugados, todos coachando para a lua, que era apenas isso que todos sabiam fazer. E bastava um gritar, para que um outro gritasse atrás, e mais outro, e outro. Assim ia vivendo a sapaiada. Até que um dia, eis que chegou por ali, uma piranha. Ela chegou sorrindo, coachando também. Disse ser sapo de uma raça nobre, tradicional. Os sapos todos, abriram mais ainda suas bocas, tão espantados com tamanha nobreza. E ela, a Piranha, foi criando regras, determinando leis. Todos obedecendo, afinal não havia sapo mais tradicional que o recém-chegado. E todo cheio de escamas, uma belezura. Pois o fato é que, aos poucos, os sapos foram sumindo, iam embora um a um do banhado. Partiam à noite, sem dar tiau para ninguém. E a Piranha? Ah, ela foi ficando cada vez mais gorda, mais gorda, mais gorda.

domingo, 22 de setembro de 2013

Fábulas facebookianas

              Motivado pelos comentários que tenho lido no Face, acabei dando voz a alguns sentires em forma de fábulas. Chamei-as de fabuletas, pelo tanto de imitação das famosas formas simples eternizadas por Fedro, depois por Esopo, a que elas se propõem. Nelas, os autores faziam reflexões sobre virtudes e vícios humanos. Momento para, de forma exemplar, fazendo uso de personificações, condenar certos comportamentos. Ou, pelo menos, propor reflexões sobre eles. É o que tento com estas minhas fabuletas.

O urubu e as formigas

Pois foi assim: um pássaro machucado caiu bem próximo do formigueiro. Fez-se então uma assembleia: algumas formigas achavam que precisavam auxiliar o pássaro, afinal ele tanto cantava para animar o trabalho delas; já outras acreditavam que teriam alimento em abundância, caso o deixassem morrer. O urubu que a tudo assistia do alto, pousou em galho próximo e defendeu a segunda posição: o inverno sempre é longo, o pássaro estava pertinho, economizaria um tanto de trabalho, com certeza. Sugeriu ainda que elas mesmas poderiam matá-lo. Aguardar que ele morresse de fome, poderia deixá-lo mais magrinho e demandaria tempo. A lábia do Urubu foi tão convincente que lá se foram as formigas a matar o pássaro. Depois que ele estava morto, o urubu veio, enxotou as formigas dali e, em alto e bom som, disse: "Saiam pra lá. A carniça é minha". E apossou-se do corpo do pássaro. As formigas? Tontas, ficaram olhando. E só. Nem música teriam mais.

A serpente e a andorinha

A serpente vinha rastejando, se espichando, toda veloz, toda silenciosa. Enroscou-se na árvore, foi subindo até o ninho da andorinha. Toda sorridente, voz delicada, sonora, a serpente foi destacando as vantagens de ser réptil: poder se esgueirar, poder subir em árvores. Era boa amiga pra se ter, afiançou. E, então, deu o bote. A andorinha, que boba não era, já estava no ar, a bater asas. Voou para um galho em que estaria segura e afirmou: Não me esgueiro, não me arrasto. Apenas tenho asas.

A hiena e o leão


A hiena, toda ranzinza, cochichava pelos cantos, e falava mal do leão. Dizia que ele era tolo, que era equivocado, larápio e ladrão; um déspota, um autoritário. falava que todos deveriam temê-lo. Afinal, ele era forte e podia matar qualquer um deles. A hiena fazia e acontecia; criticava, xingava, acusava. Mas, quando o leão ofereceu-lhe um naco do veado que acabara de matar, ela foi lá, quietinha, toda feliz, gabando a força do leão, abocanhar sua parte. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Sobre Prêmios e Jabutis...

Já tive três tartarugas, mas meu sonho mesmo é ter um jabuti. Curto os quelônios. Acho-os tão lindos quanto me agrada a elegância de uma girafa. Girafas, creio, são mais difíceis de se ter em casa. Onde, afinal, guardá-las? Jabutis são mais fáceis de se cuidar, acho. Eles têm um tanto de história naqueles cascos fragmentados; têm outro tanto de carinhos naqueles olhos que se escondem dentro dos cascos. Trazem em si a elegância, a longevidade. Talvez, por isso, a CRL tenha dado a seu maior prêmio o nome de Jabuti. Claro, é um animal brasileiro. Isso deve ter sido levado em conta também.
Pois esse ano, tive indicação dupla ao prêmio Jabuti. Na categoria conto/crônica e na juvenil.

Vento sobre terra vermelha é meu terceiro livro de contos. As histórias curtas que reuni (e que foram escritas para este livro) têm como cenário uma cidade fictícia do interior do RS, onde sentimentos e ações dos personagens são levados ao limite, trazem em si um quê de barbárie. Foi editado pela 8Inverso, aqui de Porto Alegre.



Vicente em palavras tematiza a morte. Narra, numa estrutura polifônica, a história de Vicente, ou melhor, da morte de Vicente: um garoto que falece acidentalmente. Sua morte vai obrigar que aqueles que de alguma forma conviveram com ele retomem sua vida, suas ações, seus sentimentos. Assim, o leitor vai construindo o seu Vicente. Edição da Editora Lê, de Belo Horizonte. 

domingo, 15 de setembro de 2013

Verdes, livros e templos

Nas últimas semanas, andei visitando feiras do livro e escolas. Gosto do contato com meus leitores, gosto destas andanças, todavia nem sempre o resultado é positivo. Ainda há espaços em que o preparo para o encontro com o escritor é pífio. Há pessoas que ainda creem que estar numa feira, com todos os atrativos que elas têm (atrativos para além do livro: pinturas, teatro, dança, tatuagens, enfins) formam leitores. Não creio. Creio no contato com o livro como elemento fundamental. O escritor, a conversa com o escritor, é acréscimo que apenas acresce quando houve, antes, o contato com o texto. 
Até quando eventos substituirão o livro na formação do leitor literário? O fato é que circulei pelo interior, o fato é que colhi também momentos bons, como o das duas adolescentes que se aproximaram, querendo me conhecer, querendo uma foto, mas atraída pelo meu livro "Meu pai não mora mais aqui", que elas leram na biblioteca da escola. Livro adquirido pelo Governo Federal e enviado às bibliotecas escolares. Meu coração foi festa, enverdeceu-se nestes tempos que antecedem a Primavera e que enchem nossos olhos de cores e de verde. Meu coração foi festa por perceber que ainda há jovens que encontram na biblioteca a possibilidade de outros encontros. 
E saí pelas cidades de Dois Irmãos e de Santa Cruz à cata de verdes e de templos. Gosto de templos, coleciono-os em fotos. Abaixo, alguns registros, tentando vê-los a partir de um olhar primaveril.


Toda se fazendo de verde, em parede e entorno, a Igreja Luterana de Dois Irmãos.



A Catedral de Santa Cruz do Sul: vista da praça, natureza e festa.


Catedral de Dois Irmãos: igreja Católica de São Gabriel: palmeiras e anjo.



 Igreja Luterana de Dois Irmãos em companhia de árvore verde.

sábado, 7 de setembro de 2013

E a poesia se faz


Céu de Clarice

Clarice desenha na folha branca de papel
estrelas, estrelas, céu cheio de estrelas.
Não escuta o que o professor diz,
não enxerga o que ele escreve na lousa,
não entende nada de fórmulas ou de crase.

Clarice só sabe de seu céu,
de seu céu de papel e de linhas...
Só sabe daquele céu tão seu,

repleto de estrelas, de estrelas. Estrelas,

PS.: Este poema faz parte de meu novo livro, Futurações, que será lançado pela Editora Projeto, em outubro. Mergulho no universo adolescente pelo viés da poesia. Sou expectativa.

domingo, 1 de setembro de 2013

Gente Nova 19: Augusto Fracari

Augusto Fracari é psicólogo. Entre um entender da vida e outro, vai forjando poesias, como a que segue. Descobri seu versos no Face e creio que eles merecem partilha. Maior.


(O beijo de Chanel e Picasso, de Rogério Fernandes)


Deitado
configurei teu rosto em um novo ângulo
na perspectiva exausta 
do depois 
contornei tua boca com meu dedo
desenhei um beijo
transcendendo os lábios
e te beijei inteiro
e ainda te beijo
quando exausto
sem perspectiva
no último suspiro
teus lábios se afastam
então
toco minha boca com os dedos
e desenho novamente tua boca
na minha

sábado, 31 de agosto de 2013

Duas São Francisco

Em minhas andanças por Minas Gerais, colhi um tanto de imagens de igrejas. Duas, entre tantas, me encantaram: por homenagearem um mesmo santo; por serem muito distintas em suas concepções. Em Ouro Preto, a Igreja de São Francisco é imponente, majestosa, apesar de ter sido construída já na época da decadência da mineração; em Belo Horizonte, às margens da Pampulha, a Igreja de São Francisco, projetada por Oscar Neimeyer, traz pinturas de Portinari, é linda em sua simplicidade. Nas duas, a aura sacra, o desejo de encontro se faz presença.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Palavras 38


AMIZADE - Há amigos que surgem no de repente e se tornam presença, pensar de que sempre foi assim. Todavia, afeto intenso some feito vento que não sabe se reter. E o pouco é que fica, o nada de um tanto que foi tudo.

domingo, 25 de agosto de 2013

Palavras 38






AMIZADE -  Há amigos sazonais: vêm, tornam-se presença viva, necessária, e se vão. Alguns para nunca mais. Já outros viram permanência, ficam, incorporam-se. Há ainda os que não são presença física, mas sempre lembrança boa: os contatos fortuitos - quando ocorrem - trazem de volta o vivido, como se nada de afastamento houvesse ocorrido. Hiatos, às vezes, de anos se transformam em um "nos vimos ontem".

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Homenagens vividas

Sou patronável.
Para quem não conhece o neologismo, já tão arraigado na cultura porto-alegrense, vai aqui breve explicação: patronável é o candidato a patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. São dez os patronáveis. Dentre eles, a comunidade do livro escolherá o novo patrono.
É bom ser patronável.
Aliás, é boa toda a homenagem. 
Sobretudo, quando ela vem enquanto o homenageado pode usufruí-la. Quando ele pode perceber o tanto de carinho que sua obra suscita, quando ele pode se ver presente no próprio ato da celebração. Ah, estas sim as homenagens valiosas.
Sou patronável. 
Colho este ano um pouco do carinho dos amigos a tecerem votos de sorte. E vejo na indicação um respeito da setor livreiro por mim e pela minha obra. E fico a acreditar que, de fato, sou escritor. Que meus livros e personagens habitam o coração de meus leitores. Que, de alguma forma (que pode ser pífia, não sei, não consigo precisar) faço diferença. E isso é bom. Essa a maior homenagem, sempre. Sentir-se parte do sonho que sempre se buscou construir.
Homenagens como esta, ou como as que tenho recebido como patrono de várias cidades do interior (a mais recente foi em Lindolfo Collor), ou como o apadrinhamento de bibliotecas (há duas com meu nome, na escola Dom Bosco, em Morro Reuter, e na Vinicius de Moraes, em Porto Alegre. Homenagens vividas, estas as que valem.
Detesto homenagens póstumas. Para que servem, afinal? Memória, lembrança, tentativa de imortalidade? Prefiro sentir viva no peito a emoção de ser presença. O resto, como já disse Shakespeare, é silêncio.

sábado, 10 de agosto de 2013

Crônica

Pai, entre o ter e o ser.

Eu tive um pai, disse-me a mulher que amo, e suas palavras foram eco no dentro de mim. Eu também já tive um pai. E o tempo pretérito que se agarrou à frase foi incômodo, não por ser pronunciada em tempos de proximidade destas datas instituídas pelo comércio, mas que, paradoxalmente, cumprem o papel de trazer à lembrança aqueles que aqui estão e que tiveram parte em nosso existir. Incômodo maior pelo fato de instituir fins. Todavia um fim sempre presença: lembrança maior daqueles que se foram, daqueles que não são mais presença física, não são mais toque de telefone para saber como os rebentos estão, não são mais silêncio à meia-luz, não são mais brilho nos olhos com o sucesso dos filhos, não são mais.
Você tem um pai, eu respondi, talvez querendo convencer a mim mesmo da certeza desta pertença. Ele apenas não está mais aqui. Mas é. É no que deixou de exemplo; é no que permite de lembrança positiva, sincera, afetuosa; é no que foi de parceiro, sem jamais esquecer que ser pai implica não apenas concordâncias, mas, sobretudo, apontamento de caminhos, interdições, limites; coisas muitas vezes não compreendidas no momento próprio do ocorrido.
Meu pai se foi, assim como da Laine, como o de tantas pessoas, um dia ele se foi. Contudo, sua partida deixou presença. Foi-se sem ir-se.
E o pai que se foi é dor maior em mim, maior que a ausência materna. E isso passei a entender após me tornar pai. A sintonia se estabelece. Eu mesmo querendo ser aquele que desejaria ter tido e que só hoje, apartado na ausência e na distância, entendo. Entendimento de que cada um é apenas, e somente, aquilo que pode ser, aquilo que consegue ser. Tive, hoje sei, o pai que meu pai conseguia ser, dentro de suas limitações, de seus impedimentos, de suas querências. Um pai que ainda ressoa em mim. Um pai que me dita caminhos possíveis de ser pai, quer pelo que foi (é) para mim, quer pelo que deixou de ser.

Eu sou pai, digo para mim mesmo, e este dizer me invade de uma alegria tão plena, tão completa, que passo a entender o que um dia devo ter sido pro meu pai. Eu sou pai, repito, e esta certeza me impele, sempre, a me sentir responsável por duas vidas, a me sentir amado por duas vidas nascidas de parte de mim. E isto é bom. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Ecos de meu primeiro livro

Hoje, recebi e-mail de uma professora que anda à cata de meu primeiro livro publicado: "O palito diferente". Livro já em extinção, eu mesmo só fiquei com um exemplar. Ele não foi editado novamente e, embora de tempos em tempos o procure na rede, nada encontro. Bacana isso de um livro construir fascínios nos leitores. Para quem o curte, fiz uma nova versão, publicada pela Paulinas com o título de "Um reino todo quadrado". Basicamente a mesma história, apenas o final é díspar e os elementos simbólicos também. Mas, mesmo assim, leitores querem "O Palito". Coisa estranha, e mágica, coisa sem resposta, só mesmo o encanto que alguns textos causam na gente e que a gente não consegue explicar. Ou consegue. Sei lá.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A paciência me falta

Confesso. 
Confesso que ando sem paciência. Ela se faz de rogada e, por vezes, jura que me abandonará. Eu até que a entendo. Difícil tê-la diante do tanto que se vê, que se ouve, que se lê. Me impressionam pessoas que não têm olhos de ver. Me assustam pessoas que são incapazes de espiar por sobre o muro e perceber que há um outro mundo sendo gestado: ficam imóveis, meros ventríloquos a repetirem o que aqueles que acreditam apenas que o poder deve ser delas, que defendem o próprio umbigo, que propagam seus interesse como se verdade fosse. Mas não é. É apenas a verdade que eles apregoam como verdadeira. Há outra, uma mais consistente, uma que encontra eco nos olhares daqueles que sempre foram violentados pelo poder. Agora, o protagonismo se agiganta. E isso apavora os que sempre mandaram a partir da sua lógica exclusivista, sectária.
Que estes criem inverdades, até entendo. Porém, minha paciência se esgota, quando percebo que os mais explorados, os sempre explorados, aceitem ser marionetes nas mãos de quem sempre os humilhou em seus direitos. E gritem contra si mesmos, e lutem a favor de quem os oprime.
Confesso.
Confesso que fico pasmo, fico enojado. Sofro.
E hoje quero permitir que a paciência se aparte de mim.

domingo, 16 de junho de 2013

Gente Nova: Rafael Iotti

O Rafael Iotti é amigo do face. O face também nos presenteia com boa gente, com momentos de poesia. De lá, colho o poema abaixo. Do Rafael.



maré sobe sem dar aviso prévio
correr não desafoga
frenesi só encharca mais
– então por que não se deixar molhar
nesse mar de chama viva
onde o bojo dos nossos olhos 
abriga estrelas.

Torres em meio à cerração.

Estive em Caçapava no mês passado. Momento bom de passear pelas ruas. Momento mais lindo ainda ao me deparar com a Catedral da cidade toda mergulhada na cerração do início do dia. Pareceu-me mergulho no tempo. As torres, as portas abertas (algo não tão comum hoje em dia), a minifeira de hortifrutigranjeiros bem em frente ao templo. Tudo sagrado: a casa, a natureza, o trabalho dos homens.




sábado, 1 de junho de 2013

Palavras 37

NÓS - Uns dizem que a vida é um nó. Porém, por vezes, nós atraem. Trazem em si a possibilidade de desatamento.

domingo, 12 de maio de 2013

Não sou mãe

Não sou mãe.
Nunca fui mãe. Nunca gestei no meu dentro um outro ser. Nunca de meu seio saiu a seiva que alimentaria uma vida. Não sou mãe.
Sou pai.
E, como pai, o protagonismo nos inícios das vidas de minhas pequenas nunca me coube. Ser pai é dez; ser pai é poder partilhar a vida de um ser que tem um tanto de nós; ser pai é alimentar, junto com a mulher que se escolheu para amamentar a vida e os sonhos de nossos rebentos, possibilidade.
Mas ser pai não é ser mãe.
Há uma simbiose mágica entre aquelas que gestam, que geram, que parem com os filhos gestados, gerados, paridos. Mães e filhos - para o bem e para o mal - mantêm entre si laços que vão além da relação afetiva. Muito antes da luz, muito antes dos olhos se abrirem e da vida fazer-se conhecimento, no que tem de alegria e de dor, as mães já estavam lá. Dentro delas, é que a vida se faz; fora delas é que a vida se configura.
Mães são seres necessários. Não apenas para que vidas novas surjam. Mas também para que pais possam existir.
Sou pai, porque um dia, uma mulher especial resolveu partilhar seu sonho de dar à luz comigo. Sou pai graças à existência de uma mãe.

domingo, 5 de maio de 2013

Autógrafos

Por vezes, releio autógrafos recebidos e fico me sentindo íntimo e parte da história daquele que o escreveu. Fico querendo que o escritor saiba de mim, que entenda a sintonia que julgo haver e este sentir. Mas sou, sei, apenas um leitor. Alguém que mergulha em mundos verbais, que julga que as palavras urdidas, não as da trama ou as do poema, mas as do autógrafo foram escritas apenas, singularmente, para mim, o leitor. Leitor que, embora o encontro com o escritor possa ser sempre distância, é muita presença.
Estranha, aliás, essa sensação de proximidade que eu sinto em relação aos autores que amo. E não apenas aqueles dos quais tenho livros com dedicatórias, não. Sempre penso que o autor possa saber de mim, de minha existência, embora saiba que este saber é fantasioso. As palavras têm seu potencial de aproximação. Um autor, quando escreve, talvez desconheça a força que opera no dentro de quem o lê. Esta a magia que faz do outro, alguém distante, ser próximo, pulsante, e o livro ali, o elo, o portal que remete o leitor ao mundo do seu escritor.
O autógrafo? Crença de que foi único. Ele mesmo a ser o mapa ao coração do leitor. Marca para sempre do encontro.

domingo, 28 de abril de 2013

Encontro com o Pedro

Hoje, saindo do cinema com Laine, após curtir Django Livre e a atmosfera tarantina, cruzo por uma mulher e uma criança e escuto quando ela diz: Olha, Pedro, é o Caio Riter.
Parei, voltei-me a eles. A mãe nos apresentou, disse que o Pedro é fã dos meus livros e queria muito me conhecer. Olhos de brilho, sorriso na face, nós dois no encanto do encontro já ocorrido no tanto de palavras partilhadas sem que nunca tivéssemos nos visto. Daí esse milagre que a literatura propõe: a gente tão longe, tão desconhecidos e, no trocar de palavras literárias, tão cumplicemente próximos.
Esta, talvez, a mágica.
Lembrei, depois, voltando para casa, do tanto de encanto que meus escritores preferidos me provocam. Lembrei do atmosfera de sacralidade que, por vezes, me vejo envolvendo-os. Parece que dirigir-me a eles pode provocar alguma fagulha de criação que, justo naquele momento de interrupção, estava surgindo. Lembrei também de quando me iniciava nos caminhos da leitura e da literatura e cruzava com o Quintana pela rua da praia, ou via ao longe, na Feira do Livro, um ou outro autor amado.
Os caminhos de aproximação entre leitor e escritor são sempre espaço de talvez. E, quando a certeza se dá, tudo adquire mais e mais cumplicidade. Por isso, quando acontecem momentos com o que vivi com o Pedro, quero mais é ser parada, ser olhar no olho, ser palavra. Saber-me lido é presente maior.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Palavras...

O que somos é mesmo e apenas palavras. Pronunciadas, escritas, digitadas, sussurradas, gritadas, silenciadas. Elas é que ficam, elas é que nos constroem, elas é que materializam a vida. Delas viemos, nelas permaneceremos.

sábado, 20 de abril de 2013

Lygia: a jardineira das palavras.


Lygia: a jardineira das palavras.
 
 
Espero que fique alguma coisa - Lygia Fagundes Telles
                                                                                        
            Para aquele que aprecia mergulhar em universos ficcionais, sem dúvida a descoberta de um grande livro ou de um grande autor é como labor de jardineiro, que vai jogando sementes sobre terra fértil, regando-as com esmero, ansioso por ver o broto rebentar a terra, mas sempre na expectativa de qual o presente que recolherá. Os botões são sempre surpresas, promessas de imagens únicas. Cada flor é, e sempre será, flor singular, por mais que possa desaparecer no todo do jardim.
            Penso em jardins, em flores, — mesmo correndo o risco do clichê — quando penso nas palavras. Estas, como aqueles, são sempre surpresas. Abrir um livro é estender uma ponte entre aquele que lê e aquele que deixou brotar no papel seus mundos inventados.
            Penso em botões, em flores, sempre que penetro no universo de Lygia Fagundes Telles.
            E que universo:
            Um gato que já viveu várias vidas, agnóstico e com memória; uma jovem que se encontra consigo mesma num universo onírico; um esqueleto de anão que se vai reconstruindo com o auxílio de um préstito de formigas; autoridades reunidas em um seminário cujo objetivo é destruir os ratos ou, quem sabe, um milagre em noite de Natal sobre uma barca que atravessa um rio. Todas situações de forte apelo emotivo e estético, todas flores construídas pela mesma jardineira das palavras: Lygia Fagundes Telles, que, no mês de maio, recebeu o prêmio Camões, o mais importante prêmio literário de língua portuguesa. A Lygia de contos e romances. A Lygia de vários prêmios literários, no Brasil e no exterior. A Lygia cujo texto mergulha nas profundezas do eu. A Lygia que apela ao fantástico.
            Herança, segundo a própria autora, do hábito de ouvir histórias que lhe eram narradas por uma pajem. Todas narrativas que envolviam mortos-vivos, lobisomens e tantas outras criaturas do além. “Pois bem: eu comecei contando para as outras crianças as histórias que ouvia. Mas sempre mudava um pouco o que tinha escutado”, diz Lygia.. Depois, passou a inventar suas próprias histórias. E percebeu que, ao contá-las, o temor desaparecia. Ela agora era a senhora da palavra. Concedia às personagens o destino que queria. E não era incomum mudar, de uma contação para outra, algum detalhe. Ao que a platéia protestava: “Não era assim! A caveira tinha outro nome!”. Isto, antes mesmo de aprender a escrever. Quem sabe nestas cenas infantis a semente que geraria a plantadora de histórias outras.
            Estreando na literatura em 1938, com o livro de contos Porão e Sobrado, financiado pelo próprio pai e hoje considerado pela autora como “contos ginasianos”, Lygia, a cada livro publicado, foi firmando seu nome como um dos mais importantes da literatura contemporânea. Autora de quatro romances (Ciranda de Pedra, de 1954, Verão no Aquário, de 1963, As Meninas, de 1973, e As Horas Nuas, de 1989) e de diversos livros de contos, sendo o conto Pomba enamorada considerado por José Saramago como “uma verdadeira obra-prima”. Lygia, em 2000, nos entregou Invenção e Memória, livro de contos que, numa linguagem sem excessos, funde reflexões pessoais, experiências de vida e ficção. O que é verdade e o que é invenção nestes relatos, a própria autora, em entrevistas, diz não saber. Foi coletando pedaços de memórias e reconstruindo-as num jogo sedutor, em que as fronteiras do real são invadidas pelo fantástico. Assim, seu universo memorialístico nos brinda com contos, como Potyra, em que, através do olhar de um vampiro, o processo de colonização brasileiro é posto em xeque, ou como A chave na porta, em que o sobrenatural funde presente e passado, ou ainda, com A dança com o Anjo, em que o sobrenatural mergulha a protagonista (ou a autora) numa atmosfera redentora.
Arquiteta da palavra, artífice na construção de mundos ficcionais, Lygia Fagundes Telles mostra-se, muitas vezes, insatisfeita com seu labor e, sempre que republica seus contos, lança novo olhar sobre eles, buscando a palavra perfeita, a fim de que o efeito seja, ainda mais, concentrado:  jardineira em seu labor de poda. Um de seus contos mais vezes publicado é Venha ver o pôr-do-sol, em que duas de suas temáticas, o amor e a morte, são abordadas, com maestria, conduzindo o leitor a um desfecho surpreendente, em que se percebe forte intertextualidade com a narrativa de Edgar Allan Poe. Aliás, em 2004, Lygia apresentou Meus contos preferidos, e, em 2005, lançou Meus contos esquecidos, antologias em que apresenta, mais uma vez, suas escolhas em relação à própria produção contística, numa espécie de balanço ou de testamento literário.
Mergulhar em seus mundos ficcionais é certeza de enredamento, é certeza de encontro com o inusitado, é certeza de colher flor singular no jardim da Literatura. O fantástico, conforme Fábio Lucas, transcorre “como se os fantasmas aparecessem para corrigir a realidade que não conduz ao prazer”. Surge para oferecer uma possibilidade de encontro, já que a solidão e uma intensa sensação de inadequação espacial e emocional abatem-se sobre as personagens lygianas, que sofrem e se angustiam, vítimas de situações desencontradas. Estão perdidas, soltas, sem pai nem mãe, imersas numa realidade que lhes é hostil, como, por exemplo, nota-se no romance As Horas Nuas: Rosa Ambrósio, atriz decadente, lutando para manter-se íntegra, quando tudo ao seu redor se esboroa.
Em 2002, com organização de Suênio Campos de Lucena, A Rocco publicou Durante aquele estranho chá, cujo subtítulo Perdidos e Achados fornece breve idéia do que vai pelas páginas. São crônicas, retalhos de memórias ou fragmentos publicados em jornais e revistas, ou inéditos, em que Lygia Fagundes Telles, pelo viés do sensível, traça rico painel da vida literária brasileira, referindo suas andanças pelo Brasil para falar de Literatura, bem como as afinidades e contatos com vários autores, dentre eles Monteiro Lobato, Hilda Hist e Oswald de Andrade. O mais tocante, talvez, seja a crônica que inaugura o volume, Onde estiveste de noite?, em que a autora, na noite da morte de Clarice Lispector, recebe a visita de uma andorinha perdida. Presságio da libertação da amiga.
Sobre o prêmio Camões, disse estar tão desligada de tudo, tão envolvida com suas coisas, que nem sabia. “Mas recebi com muita emoção, porque indica que uma escritora do Terceiro Mundo está transpondo barreiras”. Postura de preocupação mais com a escrita do que com a celebridade, a mesma demonstrada ao completar 90 anos. Não fez grandes comemorações. Preferiu celebrar os 40 anos de publicação do romance As Meninas, em que, através do retrato de três jovens, desnuda de forma crítica e sem condescendências um terrível momento brasileiro: a ditadura militar. Lygia não quer mais nada a não ser “cumprir seu ofício com seriedade e paixão”. Não teme a velhice nem a morte. Se há um medo é o do encontro com certas doenças, as quais ela denomina de “humilhantes”. Classificada por Ignácio de Loyola Brandão como “uma pessoa adorável”, de fato a escritora é um exemplo de simpatia e serenidade, como demonstrou em sua passagem por Porto Alegre, em 1999, por ocasião da feira do Livro. Membro da Academia Brasileira de Letras, prestes a lançar um livro infantil Eu, o gato, animal sempre presente em suas narrativas, Lygia revela ainda ter muitas cartas na manga. Em recente entrevista, disse estar às voltas com um novo romance. Nós, leitores, agradecemos. Só nos resta entoar um parabéns pelo prêmio e desejar que Lygia faça cem anos. Ou mais. Afinal, muitas flores ainda querem ser plantadas.
 
 
 
 
 

 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Crônica: Uma biblioteca de sonho


Uma biblioteca de sonho
 
                Uma biblioteca para os gaúchos. Uma biblioteca que seja ponto de encontro para a cultura: discutindo-a, produzindo-a, consultando-a, maravilhando-se com ela. Porto de chegada, mas também de partida. Esse é o sonho apregoado pelo poeta Armindo Trevisan em seu artigo Uma biblioteca estadual à altura do Rio Grande?, publicado em Zero Hora. E, quando um ícone da cultura literária fala, convém que escutemos, convém que pensemos sobre o dito.
            Há anos o Rio Grande do Sul merece uma biblioteca que dê conta de sua grandeza. Somos um povo que pensa e produz leitura e literatura; somos o estado da Jornada Literária de Passo Fundo, da Feira do Livro de Porto Alegre e de tantas outras espalhadas pelo Rio Grande, de projetos como o Adote um escritor, o Autor Presente, o Livro Lido, o Passaporte da Leitura, entre vários outros que buscam promover a troca entre escritores e leitores. Somos o estado que tem cidades que erigiram monumentos ao livro: Morro Reuter e Passo Fundo. Somos o estado que fomenta a literatura através de planos governamentais, através de concursos literários, sendo o Moacyr Scliar, que recentemente premiou o gaúcho Altair Martins, o de maior destaque atualmente. Somos o estado em que, segundo pesquisa recente, a média de leitura é a maior do país. Somos um estado leitor. Há, pois, muitos motivos para que nos orgulhemos de tais façanhas. Urge, então, que uma maior assegure, ainda mais, nosso respeito ao livro.
            O poeta clama por uma biblioteca à altura da grandeza de nosso estado e quero fazer eco ao seu pedido. Quem sabe o retorno ao prédio que, durante anos, consagrou os livros e a leitura, ali, pertinho do Theatro São Pedro, que tanto incentivo tem recebido do poder público e do privado, possa assegurar que a literatura é algo de valor em nosso estado. Lembro-me da magia que entrar na biblioteca pública causava em meu coração adolescente, quando eu me iniciava na pesquisa escolar. Estar naquele local, que tanto saber anunciava, era momento quase sacro. Livros, creio, têm mesmo esta aura. Livros, creio, necessitam de um espaço para eles; espaço que dê conta de sua grandiosidade. Com certeza, o Rio Grande merece; e os escritores também.
            O poeta Trevisan sonha. Quem sabe mais pessoas possam se unir ao seu sonho, e ele, assim, não mais sonho, irá se construindo como realidade.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Sete patinhos andando por aí.

Na Band News, matéria falando de alguns lançamentos da Editora Biruta, enfoca o meu livro Sete Patinhos na Lagoa. História de sete irmãos que são vítimas da fome do terrível Jacaré Barnabé. Mas, quando tudo parece perdido, o riso torna-se salvador. Abaixo o link:

http://bandnewstv.band.uol.com.br/colunistas/coluna.asp?idc=218&idn=653883&tt=bandnews-literatura---com-maia-prado&tc=editora-biruta-acaba-de-lancar-tres-livros-infantis

domingo, 31 de março de 2013

A Catedral de Caxias

Andar por Caxias é sempre estar entre livros. A maioria das vezes em que circulei pelas ruas, pelas praças, pelas igrejas da cidade, estava na companhia de quem ama a leitura. Bom respirar ares com aroma de palavras, de tramas, de rimas. E, em minha última passagem, flagrei a Catedral a me espiar entre os prédios da cidade grande.
 
 

segunda-feira, 4 de março de 2013

Mais uma confissão

Ando pouco fiel em matéria de leituras. Aliás, a fidelidade é cada vez mais rara. Quero ler tudo e o tempo sempre conspira contra. Assim, sigo envolvido (menos do que pretendia) com "Caim", do Saramago; com "Trilogia de Nova York", do Paul Auster; com "O zen e a arte da escrita", do Ray Bradbury; com "Dentro da baleia", do George Orwell (indicação do Nícolas Nardi) e "O menino que não queria ser príncipe e outras histórias encantadas", de Georgina Martins. Ah, e sei que já anda me querendo (ou eu a ele) o livro do Ondjaki, "Avó Dezanove e o segredo do soviético". Não sei se isso é bom (li matéria jornalísticas, dessas de descobertas estupendas, que revolucionam o mundo, que diz que para o cerébro, ler mais de uma história ao mesmo tempo, faz bem. Desconheço o poder desta verdade científica, só sei da minha necessidade de experimentar um pouco de cada amor, um tanto de cada desejo literário. Tenho sido leitor de vários corações.
E, confesso, até acho bom. Cada amor tem lá seus atrativos. Cada amor conduz ao prazer e à lágrima. Cada amor tem seu jeito de amar e de se deixar amar. Pulo das páginas de um, para as de outro, vou lendo conforme meu coração pede, dita, grita. E gosto. Tenho vários ao mesmo tempo, mas quando me entrego, naquele momento preciso, a um deles, sou só entrega. Mais nada.

domingo, 3 de março de 2013

Escrita e vida

Escrevemos não para não morrermos. Escrevemos para dar vida à vida, para criar novos mundos dentro do nosso próprio mundo. Escrevemos porque estamos vivos, e a vida necessita da palavra.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Palavras 36

GUARDA-CHUVA - Guardo em mim todas as chuvas, os ventos, as tempestades. E a bonança. Guardo em úmida pele os tantos pingos colhidos pelos caminhos pelos quais ainda andarei.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Escrita: vivido e sonho

Escrever tem sempre seu tanto de trabalho. Trabalho bom na busca da melhor forma de dar conta, através das palavras, das imagens que habitam em mim. Algumas sempre tatuagens na alma, na mente; imagens que se somam ao homem que hoje sou. Outras são só sonho, fantasia, imaginação; imagens que dão conta daquilo que não fui. E deste encontro entre o vivido e o sonhado é que a minha escrita se faz.   (Caio Riter)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

São José

 
Sobre a igreja, um céu limpo, apesar do frio invernal, as árvores sem nada de folhas, encontro meu com o cinza de Cambará. Bom ser lembrança disso nestes dias de tanto calor.

Noite

 
A noite come o dia. Ato sempre antropofágico: o um no outro. A dor do vermelho, penetração.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Palavras 35

LIMITE: Um ponto final em uma história é sempre fim. Mas um fim repleto de possibilidades outras. Afinal, toda narrativa é refazer-se contínuo.
Um ponto final nem sempre pressupõe limite. Um tanto de aceno de adeus, outro tanto de acolhida àquilo que se foi.
Escrever e reescrever a vida, que nem sempre vida é, mas é.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Caio Leitor 21 - A pau e corda: a crônica no divã

A pau e corda: a crônica no divã
Caio Riter
 
Não sou cronista.
Minto. Tal afirmação parece categórica em demasia. É que a crônica não é algo natural em mim. Não é algo que nasça do desejo de cronicar. Vez ou outra, bissextamente, cronico. Logo, não sou um cronista crônico.
Mas sou exigente.
Creio que a crônica exige mais do que muita gente, dita cronista e, portanto, escritora, tem feito diariamente nos jornais e revistas que circulam pelo país. A crônica exige arte. A arte de saber perceber o tolo, o frugal, o cotidiano, de uma forma enviesada. Lançar aquele olhar sobre o óbvio, dizendo o óbvio, mas sem apelar para obviedades. Simples. Aparentemente sim. Só aparentemente.
Assim, quando me deparo com um bom cronista ¾ algo singular nesta época de imediatismo, em que tudo deve ser palatável, em que tudo tem de ser rápido, em que tudo não pode exigir demais do leitor ¾, sou mergulho em suas palavras e viro desejo de mais e mais leitura. Fico querendo ler o óbvio, aquilo que estava ali, bem diante do meu nariz, e que eu não era capaz de ver. Ou melhor, via sem ver. O bom cronista, portanto, possibilita olhares, aguça as verdades, revela o mascarado, mostra o não visto. E faz isso, sabedor de que as palavras são sua matéria-prima e de que faz literatura, não apenas um produto que se curva às leis do mercado.
Mas, afinal, por que esse papo todo sobre a crônica e sua arte? Ora, porque, ao penetrar nas páginas do livro A pau e corda (Editora Proa), do autor Rônei Rocha, encontrei o procurado. Seus textos estão recheados de verdade. Uma verdade que pulsa, mas que não abre mão do humor e da reflexão. Há em suas crônicas aquele olhar de viés, tão necessário ao cronista. Há um tanto de vida pulsante nos recortes do cotidiano que o cronista pinça (ou que lhe caem nas mãos, ou que entram porta a dentro de seu consultório, ou que tropeçam à sua frente pelas ruas e praças da cidade) e transforma em literatura. Uma literatura, todavia, que não se pretende imediata: Rônei sabe que escrever é inscrever-se no tempo, não apenas tecer comentário datado, não apenas servir de leitura no tênue e rápido momento em que se abre um jornal.
O universo do consultório, vertido numa ótica irônica, em que o lugar-comum é revirado pelo avesso (adorei ler que existem pessoas saudáveis e que nem todo mundo necessita de terapia, por exemplo) se faz presença. Afinal, se um divã ou uma poltrona com certeza suscitam material rico ao médico (sim, eu não havia dito ainda, Rônei é psiquiatra), imagina ao cronista? Todavia, o próprio escritor acaba por se analisar ¾ como na divertida crônica Harley Roneidson ou na sensível Lola e eu ¾ e também por dissecar as ações e desejos daqueles que o cercam: a tal sociedade com seus pensares e agires.
E o leitor mergulha nestas breves reflexões sempre com desejo de quero mais, desdizendo o título do livro, visto que não há necessidade de paus nem de cordas, não há sacrifício algum, apenas o deleite que, é bem verdade, leva à reflexão: olhos se abrem para perceber o que estava o tempo todo ali e que Rônei Rocha sabe revelar. Prazer e reflexão, eis, segundo o poeta-filósofo Horácio, as funções da boa literatura.