quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Fábulas: A Serpente e o Sapo

A Serpente e o Sapo

A Serpente andava descontente. Outrora, ela podia rastejar pela floresta tranquilamente, gozando de todas as benesses que aqueles que comungam do poder possuem. A Serpente era amiga do rei.
Todavia, após disputa acirrada com o Leão - o sempre eterno rei, que perdeu o posto,  pois o povo andava descontente de apenas os bichos mais fortes e poderosos terem regalias e direitos - o Sapo assumiu o trono. E nem bem pegou o cetro, decidiu que direitos deveriam ser divididos, assim como deveres. É claro que alguns bichos grandes concordaram, viram naquela postura uma forma de construírem novas relações na floresta. Agora, todos poderiam ter possibilidades semelhantes para desfrutarem de direitos semelhantes, como, por exemplo, beber a água límpida na fonte do rio e não apenas a poluída.
Mas a Serpente, ah, a Serpente, andava descontente. Uniu-se, então, a outras tantas serpentes, escavarelhos, escorpiões e aranhas. Não era justo dividir o que sempre fora deles. E, munidos de gritos de ódio, invadiram os caminhos da floresta. Urravam, berravam, zombavam do Sapo e de todos os outros que o apoiavam. Queriam o fim daquela forma de governar. Porém, ardilosamente, diziam defender a liberdade de todos. Diziam que o Sapo impedia a ordem outrora tão tranquila, melhor que abandonasse o poder, que o Leão voltasse a reinar.
E alguns bichos tolos começaram a seguir os manifestantes. Todos esquecidos daquele tempo em que o Leão governava. Alguns inclusive, em meio à balbúrdia, nem percebiam que gritavam contra direitos que outrora nunca haviam tido.
Moral da História: O passado jamais pode ser esquecido.


Moral da História II: Quem segue serpentes corre o risco de morrer envenenado.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Um poema para o Napp

Inverno

Para Sergio Napp

A cama é gigante
para o corpo tão franzino,
pequeno, quase menino.

E ele, o homem, eu sei,
se deseja pássaro alado,
só asas e vento, desgarrado.

Mas.

Os olhos se fazem cinza,
a palavra, na garganta rascante,
engasga, reluta, não é mais amante.

O corpo, de fios todo feito,
nos brancos lençóis espera,
tudo agora desejos de primavera.


sexta-feira, 6 de março de 2015

Fábulas: Os gatos e os cães

Os gatos e os cães

Eis que os gatos e os cães resolveram eleger um líder comum. O gato e o cão chefes fizeram suas propostas, defenderam posições, discutiram ideias, bateram boca. Miaram e latiram muito. A cada miada, gatos e cães, partidários dos gatos, bradavam alucinados. A cada latida, cachorros, cadelas e gatos que julgavam as propostas dos cães mais interessantes uivavam e batiam palmas.
No dia da eleição, por uma diferença bem pequena de votos, o cão chefe foi eleito líder dos cães e dos gatos. Para quê? O gato chefe pediu recontagem dos votos. Perdeu de novo. Então, ficou cheio de mimimi, dizendo que o cão isso, que o cão aquilo. No final, pedia: “Este cão não pode ser nosso líder. Ele é um cão!” Convocou os gatos e os cães, descontentes com a eleição, para que saíssem às ruas, para que exigissem a saída do cão, eleito democraticamente, do poder. Atrás dele, ouvia-se o eco de alguns latidos e outros tantos miados.


Moral da história: A democracia, para certos gatos, só interessa quando atende seus desejos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Igrejas portenhas

Que eu gosto de igrejas, todo mundo sabe. Nas andanças por Buenos Aires, encontrei algumas. Há nelas um pouco da cidade. Creio que as igrejas são mesmo testemunhos.


Capela de São Roque


Catedral Metropolitana

 Igreja de São Francisco

 Igreja do Santíssimo Rosário


Igreja N.Sra. Pilar

Altar Principal da Igreja N.Sra. Del Pilar

Primeiro dia de aula

Quando eu tinha seis anos (eu era um guri bem miúdo), fui levado pela mão, por uma de minhas irmãs, para a escola. Era março de 19..... e eu já sabia ler. A escola ficava na rua da minha casa, bem perto, mas tenho na memória o tanto de lonjuras que havia entre aqueles dois portões: o da minha casa, o da minha escola. Do dia em si, da primeira professora, do que ela falou, do que ela ensinou, de meus primeiros colegas, há um vazio de lembranças. Ah, mas da roupa que eu estava (calção azul, camisa amarela, que minha mãe havia comprado para uma festa familiar) e da minha mão firme agarrada à da minha irmã, disso eu lembro. Memória sempre viva em mim. Eu esperava tanto daquelas aulas, daquele mundo no qual me iniciava.
Porém, infelizmente, não foi a escola quem me construiu. Ela, hoje sei, colaborou pouco com quem sou. A biblioteca sim. Os livros mais ainda. Neles, descobri que a vida é mais, bem mais. 

Descobri que páginas abertas, letras decifradas são capazes de abrir olhos e de cultivar o coração.
Hoje, os livros fazem parte de mim. 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O guri Urbim

O riso fácil, solto; as palavras sinceras; o tom de voz forte e ao mesmo tempo doce; o jeito de guri sempre vivo; o brilho da infância estampado nos olhos, este era o peralta Urbim, um guri de muitos anos; um guri que aprendeu que a meninice não tem idade, não tem tempo, não tem hora. O guri que, agora, deve estar entre os anjos, empinando pandorgas, jogando bolinhas de gude, colando figurinhas no álbum da existência.


Urbim era um guardador de memória, era um ressuscitador de brincadeira de seu tempo. Através de suas histórias, de seus poemas, ia trazendo ao presente um tempo que já não era mais nosso, mas que voltava a ser nosso através de seu olhar nostálgico: os cadernos de temas, os álbuns de cromos, os carrinhos de madeira, as cinco marias, o peão, o bambolê... E o mundo rodava, rodava, rodava sua ciranda de alegrias.

Urbim foi gente boa. Gente daquelas de encher a sala com seu riso. Gente de quem a gente gostava de estar por perto. Gente que se imortalizou criança. Vê-lo a narrar suas histórias, fazendo uso dos personagens que ele mesmo forjava em pedra, em porongos, em pedaços de madeira, era permitir-se mergulho na infância. Urbim, nestes momentos, se tornava guia pelas estradas da imaginação. E se a gente era criança, aceitávamos a mão que se estendia, acolhíamos o abraço da fantasia. E se a gente era adulto, aceitávamos o convite para voltarmos a um tempo tão nosso e tão esquecido, aceitávamos a magia infantil com que ele nos presenteava.

E, na sexta última, sei lá por que, o Urbim resolveu contar suas histórias, dar seu riso, criar seus personagens em outra dimensão. A nós, que por enquanto aqui ficamos, resta o carinho presente em seus livros. Estes estarão por aqui para sempre. Ou, pelo menos, até enquanto houver alguém com coração infante que abra as suas páginas.