Primeira dor
Nos dois últimos dias, vi dois
filmes que concorreram ao Oscar: “Philomena” e “12 anos de escravidão”. E o que
doeu, o que abriu buraco no dentro de mim, é saber que tudo aquilo aconteceu.
Em ambos, a crueldade que humanos são capazes de impetrarem contra seus
semelhantes; em ambos, os algozes justificavam
suas ações em crenças inabaláveis. Uma mulher e um homem, uma branca e um
negro, os dois vítimas de um sistema que oprime em nome de uma verdade
discriminatória, segregadora.
Segunda dor
Dor outra, maior quem sabe, foi
perceber que o discurso do dominador foi assumido pelas vítimas, como se toda a
desgraça que se abateu sobre elas fosse natural. Até quando o oprimido fará
isso? Até quando aquele que padece de uma realidade cruel acreditará na própria
culpa do mal, julgando que tudo ocorre como deve ocorrer? Acuados pelo medo,
temerosos da mudança, a ação sendo inibida pelo receio de uma verdade mais
sofrida ainda. Assim, calam, assumem o verbo do outro, do dominador.
Terceira dor
Esta vivida, sobretudo ao
assistir “12 anos de escravidão”. Na plateia do GNC Moinhos, um nada de negros;
nos rostos dos que saíam, em sua maioria, uma expressão despreocupada, um ou
outro riso, como se não tivessem sido tocados pela dor pungente expressa na
tela grande, tudo talvez não passando apenas de um espetáculo cinematográfico. Como
não se deixar tocar, como sair incólume, como ter palavra leve, quando fomos
premiados com a possibilidade de repensar a vida passada, a fim de que
situações como as retratadas nos filmes jamais ocorram novamente? Pergunta que
ainda reverbera em mim.
E pensar que depois de assistir
a esse filme, depois de aprender nos bancos escolares o que foi a escravidão, há gente que segue acreditando que o sistema de cotas raciais é injusto. Ora, por
favor.