segunda-feira, 3 de março de 2014

Algumas dores


            Primeira dor
Nos dois últimos dias, vi dois filmes que concorreram ao Oscar: “Philomena” e “12 anos de escravidão”. E o que doeu, o que abriu buraco no dentro de mim, é saber que tudo aquilo aconteceu. Em ambos, a crueldade que humanos são capazes de impetrarem contra seus semelhantes;  em ambos, os algozes justificavam suas ações em crenças inabaláveis. Uma mulher e um homem, uma branca e um negro, os dois vítimas de um sistema que oprime em nome de uma verdade discriminatória, segregadora.

Segunda dor
Dor outra, maior quem sabe, foi perceber que o discurso do dominador foi assumido pelas vítimas, como se toda a desgraça que se abateu sobre elas fosse natural. Até quando o oprimido fará isso? Até quando aquele que padece de uma realidade cruel acreditará na própria culpa do mal, julgando que tudo ocorre como deve ocorrer? Acuados pelo medo, temerosos da mudança, a ação sendo inibida pelo receio de uma verdade mais sofrida ainda. Assim, calam, assumem o verbo do outro, do dominador.

Terceira dor
Esta vivida, sobretudo ao assistir “12 anos de escravidão”. Na plateia do GNC Moinhos, um nada de negros; nos rostos dos que saíam, em sua maioria, uma expressão despreocupada, um ou outro riso, como se não tivessem sido tocados pela dor pungente expressa na tela grande, tudo talvez não passando apenas de um espetáculo cinematográfico. Como não se deixar tocar, como sair incólume, como ter palavra leve, quando fomos premiados com a possibilidade de repensar a vida passada, a fim de que situações como as retratadas nos filmes jamais ocorram novamente? Pergunta que ainda reverbera em mim.

E pensar que depois de assistir a esse filme, depois de aprender nos bancos escolares o que foi a escravidão, há gente que segue acreditando que o sistema de cotas raciais é injusto. Ora, por favor.


2 comentários:

luisventurafotografia disse...

O humano sempre será o menos "humano" de todos os seres vivos. Mas não falo isso para carregar culpas, não me toca isso, é parte do todo que ai esta. Nos toca mais por termos consciência das m que fazemos, e nem sei se isso e tão interessante assim. A gente passa uma titica de nada em cima deste ovo chamada TERRA, um algo de nada na imensurável jornada DESTE universo. Então, me pego querendo cada vez mais ser expectador, sem muita emoção, me protegendo das decepções quando vejo para dentro de nós mesmos.

Elizangela Maria Esteves de Barros disse...

Belíssima análise, eu assisti os dois seguidos no mesmo dia. Realmente mexeu muito comigo, sentir dor, compaixão e raiva tudo ao mesmo tempo. Chorei muito, muito mesmo e por instantes senti raiva e nojo da humanidade e por fazer parte dela.
Espero aprender com esses erros do passado para não repetir no futuro.