sábado, 13 de outubro de 2012

Vicente vem vindo.

Há muito escrevi Vicente em Palavras. Não lembro mais em que ano sua história recebeu o ponto final. Depois, o envio a editoras que, em via de regra, diziam ser o tema pesado: a história de vida de um adolescente morto. E sua existência vai sendo apresentada ao leitor através das pessoas que conviveram com ele e que vão nos revelando, afinal, quem era Vicente, alguém que, agora, só pode existir a partir dos discursos, das palavras de quem o conheceu, de quem conviveu com ele. Proposta ousada que encontrou este ano guarida na Editora Lê, de Belo Horizonte-MG. E logo-logo, Vicente em Palavras estará disponível para quem quiser mergulhar na sua dor. Abaixo, um fragmento do início do livro.


Palavras do Henrique, o irmão mais velho — 1
 
 

            Te olho aí deitado, mano. Parece mentira. Todo o mundo chora, nossa mãe tá desesperada e eu quero chorar também, quero, mas fico pensando em ti e já nem sei direito se essa dor que sinto é dor de morte ou é alívio. Tu sempre foi o mais alegre, o mais esperto, o mais bonito, o mais namorador, o mais baladeiro, e eu ficava querendo ser tu. Tudo errado, tudo invertido. O irmão mais moço é que tem que admirar o mais velho. Com a gente, não foi assim. Sempre eu te espiando, eu te imitando no sozinho do quarto, eu tendo que ouvir das minhas colegas de aula o tanto de admiração que elas tinham por ti. Ficavam dizendo: O teu irmão é um gato. Mas, agora, um gato morto. Acidente fatal. Quem mandou ficar querendo se aparecer? Quem mandou ficar fazendo manobras radicais no skate? Quem? Agora tu tá morto, mano, e eu tô vivo. Eu, com meus óculos, com minha magreza, com minha timidez, com meu sorriso sem graça. Eu tô vivo e sou, de novo, filho único.
 
 
 

Fragmento do diário de Natália no dia do evento — 1
 
 
 
 

            É difícil. Bem difícil. O Vico lá e eu sem coragem de dar um beijo nele. Coisa mais maluca. Difícil de acreditar mesmo. O cheiro das flores. Eu até que gosto de flores. O calor insuportável de março. Bom pra ir pra praia. Não pra isso. Pra isso não. Os amigos em volta do caixão. O desespero da Marta. O meu namorado lá deitado. No rosto, a brancura dos mortos. Um beijo. Só um. Não tive coragem

 

2 comentários:

Beatriz Viana disse...

Acabei de ler "Vicente em palavras". Incrivel, surreal, inacreditavel. O livro é muito bom, mas fiquei muito indignada com a predilaçao da mae pelo filho, que ao meu ver nao era tao perfeito assim. Fiquei surpresa, sim o tema é pesado e estou pensando se vou coloca-lo para meus alunos ler, nao sei. Mas estou sem palavras. O livro é fantastico. Parabens Caio Riter, virei sua fã. Beijos

Beatriz Viana disse...

Acabei de ler "Vicente em palavras". Incrivel, surreal, inacreditavel. O livro é muito bom, mas fiquei muito indignada com a predilaçao da mae pelo filho, que ao meu ver nao era tao perfeito assim. Fiquei surpresa, sim o tema é pesado e estou pensando se vou coloca-lo para meus alunos ler, nao sei. Mas estou sem palavras. O livro é fantastico. Parabens Caio Riter, virei sua fã. Beijos