sábado, 7 de setembro de 2013

E a poesia se faz


Céu de Clarice

Clarice desenha na folha branca de papel
estrelas, estrelas, céu cheio de estrelas.
Não escuta o que o professor diz,
não enxerga o que ele escreve na lousa,
não entende nada de fórmulas ou de crase.

Clarice só sabe de seu céu,
de seu céu de papel e de linhas...
Só sabe daquele céu tão seu,

repleto de estrelas, de estrelas. Estrelas,

PS.: Este poema faz parte de meu novo livro, Futurações, que será lançado pela Editora Projeto, em outubro. Mergulho no universo adolescente pelo viés da poesia. Sou expectativa.

domingo, 1 de setembro de 2013

Gente Nova 19: Augusto Fracari

Augusto Fracari é psicólogo. Entre um entender da vida e outro, vai forjando poesias, como a que segue. Descobri seu versos no Face e creio que eles merecem partilha. Maior.


(O beijo de Chanel e Picasso, de Rogério Fernandes)


Deitado
configurei teu rosto em um novo ângulo
na perspectiva exausta 
do depois 
contornei tua boca com meu dedo
desenhei um beijo
transcendendo os lábios
e te beijei inteiro
e ainda te beijo
quando exausto
sem perspectiva
no último suspiro
teus lábios se afastam
então
toco minha boca com os dedos
e desenho novamente tua boca
na minha

sábado, 31 de agosto de 2013

Duas São Francisco

Em minhas andanças por Minas Gerais, colhi um tanto de imagens de igrejas. Duas, entre tantas, me encantaram: por homenagearem um mesmo santo; por serem muito distintas em suas concepções. Em Ouro Preto, a Igreja de São Francisco é imponente, majestosa, apesar de ter sido construída já na época da decadência da mineração; em Belo Horizonte, às margens da Pampulha, a Igreja de São Francisco, projetada por Oscar Neimeyer, traz pinturas de Portinari, é linda em sua simplicidade. Nas duas, a aura sacra, o desejo de encontro se faz presença.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Palavras 38


AMIZADE - Há amigos que surgem no de repente e se tornam presença, pensar de que sempre foi assim. Todavia, afeto intenso some feito vento que não sabe se reter. E o pouco é que fica, o nada de um tanto que foi tudo.

domingo, 25 de agosto de 2013

Palavras 38






AMIZADE -  Há amigos sazonais: vêm, tornam-se presença viva, necessária, e se vão. Alguns para nunca mais. Já outros viram permanência, ficam, incorporam-se. Há ainda os que não são presença física, mas sempre lembrança boa: os contatos fortuitos - quando ocorrem - trazem de volta o vivido, como se nada de afastamento houvesse ocorrido. Hiatos, às vezes, de anos se transformam em um "nos vimos ontem".

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Homenagens vividas

Sou patronável.
Para quem não conhece o neologismo, já tão arraigado na cultura porto-alegrense, vai aqui breve explicação: patronável é o candidato a patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. São dez os patronáveis. Dentre eles, a comunidade do livro escolherá o novo patrono.
É bom ser patronável.
Aliás, é boa toda a homenagem. 
Sobretudo, quando ela vem enquanto o homenageado pode usufruí-la. Quando ele pode perceber o tanto de carinho que sua obra suscita, quando ele pode se ver presente no próprio ato da celebração. Ah, estas sim as homenagens valiosas.
Sou patronável. 
Colho este ano um pouco do carinho dos amigos a tecerem votos de sorte. E vejo na indicação um respeito da setor livreiro por mim e pela minha obra. E fico a acreditar que, de fato, sou escritor. Que meus livros e personagens habitam o coração de meus leitores. Que, de alguma forma (que pode ser pífia, não sei, não consigo precisar) faço diferença. E isso é bom. Essa a maior homenagem, sempre. Sentir-se parte do sonho que sempre se buscou construir.
Homenagens como esta, ou como as que tenho recebido como patrono de várias cidades do interior (a mais recente foi em Lindolfo Collor), ou como o apadrinhamento de bibliotecas (há duas com meu nome, na escola Dom Bosco, em Morro Reuter, e na Vinicius de Moraes, em Porto Alegre. Homenagens vividas, estas as que valem.
Detesto homenagens póstumas. Para que servem, afinal? Memória, lembrança, tentativa de imortalidade? Prefiro sentir viva no peito a emoção de ser presença. O resto, como já disse Shakespeare, é silêncio.

sábado, 10 de agosto de 2013

Crônica

Pai, entre o ter e o ser.

Eu tive um pai, disse-me a mulher que amo, e suas palavras foram eco no dentro de mim. Eu também já tive um pai. E o tempo pretérito que se agarrou à frase foi incômodo, não por ser pronunciada em tempos de proximidade destas datas instituídas pelo comércio, mas que, paradoxalmente, cumprem o papel de trazer à lembrança aqueles que aqui estão e que tiveram parte em nosso existir. Incômodo maior pelo fato de instituir fins. Todavia um fim sempre presença: lembrança maior daqueles que se foram, daqueles que não são mais presença física, não são mais toque de telefone para saber como os rebentos estão, não são mais silêncio à meia-luz, não são mais brilho nos olhos com o sucesso dos filhos, não são mais.
Você tem um pai, eu respondi, talvez querendo convencer a mim mesmo da certeza desta pertença. Ele apenas não está mais aqui. Mas é. É no que deixou de exemplo; é no que permite de lembrança positiva, sincera, afetuosa; é no que foi de parceiro, sem jamais esquecer que ser pai implica não apenas concordâncias, mas, sobretudo, apontamento de caminhos, interdições, limites; coisas muitas vezes não compreendidas no momento próprio do ocorrido.
Meu pai se foi, assim como da Laine, como o de tantas pessoas, um dia ele se foi. Contudo, sua partida deixou presença. Foi-se sem ir-se.
E o pai que se foi é dor maior em mim, maior que a ausência materna. E isso passei a entender após me tornar pai. A sintonia se estabelece. Eu mesmo querendo ser aquele que desejaria ter tido e que só hoje, apartado na ausência e na distância, entendo. Entendimento de que cada um é apenas, e somente, aquilo que pode ser, aquilo que consegue ser. Tive, hoje sei, o pai que meu pai conseguia ser, dentro de suas limitações, de seus impedimentos, de suas querências. Um pai que ainda ressoa em mim. Um pai que me dita caminhos possíveis de ser pai, quer pelo que foi (é) para mim, quer pelo que deixou de ser.

Eu sou pai, digo para mim mesmo, e este dizer me invade de uma alegria tão plena, tão completa, que passo a entender o que um dia devo ter sido pro meu pai. Eu sou pai, repito, e esta certeza me impele, sempre, a me sentir responsável por duas vidas, a me sentir amado por duas vidas nascidas de parte de mim. E isto é bom.