sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Tipos de escritores: os ensimesmados e os conversadores

        Rosa Montero, em "A louca da casa", particularmente no capítulo 17, aborda diferentes categorias de escritores, definições levantadas por diferentes autores e por ela mesma. Algumas definições são pautadas não no estilo ou na concepção de escrita, mas no resultado: escritores mamíferos produziriam grandes romances em número de páginas; escritores insetos, textos mais curtos, todavia precisos. Como exemplo, cita "A metamorfose", de Kafka, como resultado de um escritor inseto, e "Ulisses", de Joyce, como modelo mamífero, afirmando que o livro serve mais como exercício modernista do que como romance, algo em que acredito também. O tipo de livro incensado por quem não o compreende.
              Um livro, creio, necessita ser comunicante; pode - claro - ter sua parcela de invencionismo na linguagem ou na estrutura, reinventar a linguagem, ser hermético, todavia nada disso (nunca) pode ofuscar o princípio maior de uma narrativa que é o contar uma história.
            A partir de tais ideias, me peguei a pensar em como categorizaria os escritores caso tivesse que os tipificar. É possível que buscasse observar seus projetos literários e, assim, os dividiria em dois grupos: o primeiro eu chamaria de escritores conversadores, aqueles que olham para fora, para o outro, para o altero. O segundo grupo, eu chamaria de escritores ensimesmados, os que olham apenas para si, que não estendem olhares aos leitores. 
     Os conversadores buscam discutir o mundo que os cerca, suas inquietações, suas problematizações, por meio de linguagem e de estrutura inventiva mas não impeditiva de compreensão. Tais autores querem o diálogo, querem expor uma dor comunicante. São escritores que emocionam (a arte precisa emocionar), que sensibilizam, que de alguma forma conseguem tocar o outro, desacomodar o outro.
         Já os ensimesmados produzem uma literatura um tanto masturbatória. Querem entortar e reentortar a linguagem, mais preocupados com a estética da linguagem do que com a narratividade textual, esta fica apagada, escondida no exagero estético. O leitor, para penetrar no texto, precisará dominar a chave para decifrar o bosque árduo da linguagem excessivamente trabalhada, ficando, sem sua maioria, apartado do texto que, em vez de dialogar com a emoção, resulta frio, revela-se produto formatado pela razão, cujo maior objetivo é o dizer bonito, é o burilamento das construções frasais. Assim, tudo se torna distante e o autor acaba, qual um parnasiano, isolado em sua torre de marfim, não raro se sentindo um incompreendido, alguém cujos leitores são incapazes de compreender.

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