TEMPO - Sempre ele, a nos devorar, fera sedenta, sem piedade. Nós, os títeres, na luta,
quase insana, de nos fazermos perenes. E, creio, só há possibilidade de
eternidade mesmo é no coração de quem nos ama.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Os túneis da igreja de Viamão
A igreja matriz de Viamão, Nossa Senhora da Conceição, é a primeira (não sei se única) igreja-forte do Brasil. Contam que, em tempos de guerra, quando a cidade era a capital da província, suas pesadas portas eram fechadas e a população ficava protegida (claro que não devia ser toda a população, né? Talvez os mais afortunados, apenas). Pois, quando estive em Viamão, certa vez me contaram a lenda dos túneis que atravessam a cidade. Dizem que eles partem da igreja. Que há uma passagem secreta e por ela os revolucionários saíam escondidos, e mergulhavam nos túneis, que desembocavam nas fontes espalhadas pela cidade. Lenda, apenas lendas. Ou não.
O fato é que visitar Viamão gerou o texto "Cinco enigmas, um tesouro", que participou do Projeto Livros na Mão, coordenado pela escritora (e amiga) Marô Barbieri, e que no momento ainda não está comprometido com nenhuma editora. Vai um trechinho aí pra quem é curioso:
O fato é que visitar Viamão gerou o texto "Cinco enigmas, um tesouro", que participou do Projeto Livros na Mão, coordenado pela escritora (e amiga) Marô Barbieri, e que no momento ainda não está comprometido com nenhuma editora. Vai um trechinho aí pra quem é curioso:
1. O sonho
Um raio
estoura lá para os lados dos charcos de Tarumã. O cavalo empina, talvez pelo
ruído do trovão, talvez pela chuva forte, gotas quase lâminas a machucarem seu
pelo. Gotas que também ferem o rosto do cavaleiro, que segura as rédeas firmes
e toca o animal em direção à igreja. Aquele é seu destino, lá estará seguro para
fazer o que deve fazer.
Noite
escura, céu todo fechado pelas grossas nuvens que desabam sobre Viamão. O homem
açoita o cavalo. Coração disparado, aperta contra o peito um pacote. Nem sombra
de gente alguma nas ruas de pedra. Quem afinal seria louco de sair do aconchego
dos cobertores numa noite fria como aquela? Quem além dele? Somente aqueles que
o perseguem: os homens do Serapião.
Chega à
praça, olha para trás, para os lados: ninguém. O padre, àquela hora, deve estar
no segundo sono. Melhor assim. Nada de testemunhas. Nada.
Desce
do cavalo, bate em seu lombo para que ele se vá, para que suma pelas ruas da
cidade. Que seus perseguidores se vão atrás do animal e se esqueçam dele ali na
Igreja de N.Srª da Conceição.
Empurra
a porta da igreja-fortaleza, entra. Fecha a pesada porta atrás de si e o frio
gélido do prédio santo o faz arrepiar-se. Benze-se, caminha até o altar. Um
raio explode no céu e ilumina a nave em tons coloridos, filtrados pelos vitrais.
A porta da igreja abre-se com um estrondo. O homem volta-se, deixa o pacote que
traz cair ao chão. O peso do que ele contém lasca o piso, deixa uma marca funda.
Teme.
Mas é apenas
o vento. Apenas ele. Segue em direção ao altar, não sem antes pegar o pacote.
Sabe o que tem que fazer.
Multiplicações
Eu, multiplicado na visão de meus leitores. Acabo sendo muitos, e um só. Na verdade, talvez tenhamos lá outros que habitam em nós. Pro bem, pro mal.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Caio e os escritores: encontro com Mia
Há, creio, uma aura que aproxima leitor e escritor. Pelo menos comigo é assim. Há autores cuja escrita é sempre convite, há autores cujas palavras se tornam necessidade de encontro, há autores que fico desejando conhecer. Porém, em certos momentos, a escrita não condiz com a pessoa e a decepção pode ser motivo de afastamento, dizem alguns. Eu sempre quero acreditar que não. Pelo menos não com os autores de que gosto.
Pois novembro me brindou com um encontro inesperado.
Quando soube que o autor moçambicano Mia Couto estaria em Porto Alegre, na Feira do Livro, pensei que, com certeza, iria ouvi-lo falar. Afinal, a estética de sua escrita, os mundo urdidos por ele são de fascínio aprisionante. Uma vez degustado, o desejo de quero mais se faz presente. Assim, é bom. Assim, é que a literatura de alguém se prende em nós, se tatua em nossa alma. Pois a promessa de encontro com Mia foi além de um mero assistir a uma palestra. Abro e-mail e a querida Cleonice Bourcheid, poeta que encanta, me convida para um jantar em que receberia Mia Couto.
Meu aceite, é óbvio, não demorou mais que o tempo para digitar a resposta.
E no dia 10, lá estava eu, de longe, observando o escritor de tantas palavras desacomodadoras. E a aproximação provável se deu; e as palavras foram trocadas; e o mergulho em nossas arquiteturas literárias foram trocadas (eu aproveitando para saber os caminhos de Mia em sua criação); e um livro foi autografado; e o pedido de que eu autografasse um meu para ele também. Tudo momento de entendimento e de confirmação de que, por trás do escritor incensado pela mídia e pela academia, existe um homem. Um homem humano. Nada de vaidade ou de estrelismo. Ele mesmo afirmando que tudo o que tem para dizer está nos seus livros; eles é que valem.
Gostei de ter estado com Mia Couto. Gostei do homem, assim como gosto do escritor. E isso foi bom.
Pois novembro me brindou com um encontro inesperado.
Quando soube que o autor moçambicano Mia Couto estaria em Porto Alegre, na Feira do Livro, pensei que, com certeza, iria ouvi-lo falar. Afinal, a estética de sua escrita, os mundo urdidos por ele são de fascínio aprisionante. Uma vez degustado, o desejo de quero mais se faz presente. Assim, é bom. Assim, é que a literatura de alguém se prende em nós, se tatua em nossa alma. Pois a promessa de encontro com Mia foi além de um mero assistir a uma palestra. Abro e-mail e a querida Cleonice Bourcheid, poeta que encanta, me convida para um jantar em que receberia Mia Couto.
Meu aceite, é óbvio, não demorou mais que o tempo para digitar a resposta.
E no dia 10, lá estava eu, de longe, observando o escritor de tantas palavras desacomodadoras. E a aproximação provável se deu; e as palavras foram trocadas; e o mergulho em nossas arquiteturas literárias foram trocadas (eu aproveitando para saber os caminhos de Mia em sua criação); e um livro foi autografado; e o pedido de que eu autografasse um meu para ele também. Tudo momento de entendimento e de confirmação de que, por trás do escritor incensado pela mídia e pela academia, existe um homem. Um homem humano. Nada de vaidade ou de estrelismo. Ele mesmo afirmando que tudo o que tem para dizer está nos seus livros; eles é que valem.
Gostei de ter estado com Mia Couto. Gostei do homem, assim como gosto do escritor. E isso foi bom.
domingo, 14 de outubro de 2012
A catedral de Antônio
Entre livros, lá em Antônio Prado, me deparei com a catedral da cidade, retrato parado no tempo. No dentro também, caminhar por corredores repletos de imagens sacras foi mergulho no pretérito não vivido. A catedral, majestosa, torre lançadas ao céu de poucas nuvens.
Fragmentos literários 7
Os nomes, de Benhur Bortolotto
Porque não se pode almoçar num lugar como este, e olhou para o restaurante mais uma vez, mas lá sim. E não percebeu que estava lamentando a indignidade que a sobrevivência impõe aos seres humanos, e sua própria indignidade, que Lígia não deveria, de forma alguma contemplar. Vestiu-se de carne e pele em fantasia de gestos.
(pag. 43, Editora Proa, 2012)
Porque não se pode almoçar num lugar como este, e olhou para o restaurante mais uma vez, mas lá sim. E não percebeu que estava lamentando a indignidade que a sobrevivência impõe aos seres humanos, e sua própria indignidade, que Lígia não deveria, de forma alguma contemplar. Vestiu-se de carne e pele em fantasia de gestos.
(pag. 43, Editora Proa, 2012)
sábado, 13 de outubro de 2012
Vicente vem vindo.
Há muito escrevi Vicente em Palavras. Não lembro mais em que ano sua história recebeu o ponto final. Depois, o envio a editoras que, em via de regra, diziam ser o tema pesado: a história de vida de um adolescente morto. E sua existência vai sendo apresentada ao leitor através das pessoas que conviveram com ele e que vão nos revelando, afinal, quem era Vicente, alguém que, agora, só pode existir a partir dos discursos, das palavras de quem o conheceu, de quem conviveu com ele. Proposta ousada que encontrou este ano guarida na Editora Lê, de Belo Horizonte-MG. E logo-logo, Vicente em Palavras estará disponível para quem quiser mergulhar na sua dor. Abaixo, um fragmento do início do livro.
Palavras do Henrique, o
irmão mais velho — 1
Te olho aí deitado, mano. Parece
mentira. Todo o mundo chora, nossa mãe tá desesperada e eu quero chorar também,
quero, mas fico pensando em ti e já nem sei direito se essa dor que sinto é dor
de morte ou é alívio. Tu sempre foi o mais alegre, o mais esperto, o mais
bonito, o mais namorador, o mais baladeiro, e eu ficava querendo ser tu. Tudo
errado, tudo invertido. O irmão mais moço é que tem que admirar o mais velho.
Com a gente, não foi assim. Sempre eu te espiando, eu te imitando no sozinho do
quarto, eu tendo que ouvir das minhas colegas de aula o tanto de admiração que
elas tinham por ti. Ficavam dizendo: O
teu irmão é um gato. Mas, agora, um gato morto. Acidente fatal. Quem mandou
ficar querendo se aparecer? Quem mandou ficar fazendo manobras radicais no
skate? Quem? Agora tu tá morto, mano, e eu tô vivo. Eu, com meus óculos, com
minha magreza, com minha timidez, com meu sorriso sem graça. Eu tô vivo e sou,
de novo, filho único.
Fragmento do diário de
Natália no dia do evento — 1
É difícil. Bem difícil. O Vico lá e
eu sem coragem de dar um beijo nele. Coisa mais maluca. Difícil de acreditar
mesmo. O cheiro das flores. Eu até que gosto de flores. O calor insuportável de
março. Bom pra ir pra praia. Não pra isso. Pra isso não. Os amigos em volta do
caixão. O desespero da Marta. O meu namorado lá deitado. No rosto, a brancura dos
mortos. Um beijo. Só um. Não tive coragem
Assinar:
Postagens (Atom)





