Finda-se o homem, sobrevivem as palavras. Não sei se isso é ou não alento. A vida tem lá seu prazo de validade, todavia, sabemos, alguns partem antes. Pelo menos essa é a sensação que fica. Pessoas-ponte, pessoas-palavra boa, deveriam ser (de verdade!) imortais, deveriam sempre estender seu olhar de abertura àqueles que desejam uma palavra de ânimo, um gesto de encontro.Sempre acreditei que quem escreve deve ser mão estendida ao leitor. As histórias vertidas em papel não podem jamais ser prazer individual. Palavras escritas, viradas livro, têm que ter a capacidade de soar no ouvido do outro, de mexer nas entranhas do outro, de qualificar o outro. Palavra que gera riso e choro, gera agonia e alento, sofrimento e esperança, trabalho e prazer.
Poucos são, no entanto, aqueles escritores que, ao atingir um patamar de grande autor, com vasta obra, inúmeras traduções, diferentes premiações, seguem crendo que, antes de serem artistas, são gente. E gente anima, estende mão, gasta um tanto de seu tempo, sorri, troca ideias com quem quer que se aproxime e seja desejo de partilha. Às vezes no afã de aprender, outras vezes apenas para estar perto, para ouvir o que aquele tem a dizer.
Scliar era, antes de um grande autor, esse tipo de gente-gente.
Nos contatos que tive com ele, uma ou outra viagem, ele sempre era gente. A imortalidade não lhe trouxe estrelismo algum, não lhe fez ser pessoa esnobe, chata, pedante. Ao contrário. Acho que apenas mostrou-lhe que as conquistas vinham do tanto de humano que ele era, ou talvez nem isso. Talvez para ele (médico público) ser gente fosse condição obrigatória para quem desejasse lidar com gente, ou talvez a origem humilde, ou sabe-se lá quantos talvez.
O fato é um: a Literatura perde com a saída de cena de Moacyr Scliar, mas mais que a Literatura a vida perde um homem. Homem no sentido mais amplo que a noção de humanidade possa nos proporcionar.
Agora, ficam suas palavras, suas histórias. História que não optaram por um público específico. Escreveu para todos: crianças, adolescentes, adultos. Sabedor que aquele que conta histórias conta-as para o mundo, para todo mundo, e elas vão sempre encontrar lugar no coração de gente que ame as palavras. Como eu. Como talvez você que me lê.